sexta-feira, 5 de março de 2021

'Maringá já colapsou', diz médico

05/03/2021_

Café com Jornalista – Sobrecarregado pelo alto nível de transmissão da variante P1 do coronavírus – identificada em Manaus –, o sistema de saúde de Maringá já colapsou. Quem diz isso é um médico que trabalha em três hospitais da cidade.

Boletim de quinta (04/03) da Secretaria de Saúde de Maringá
Boletim de quinta (4) da Secretaria de Saúde de Maringá
O médico pediu para ter seu nome mantido em sigilo, por receio de ataques por parte de negacionistas e pessoas contrárias ao lockdown adotado no Estado e às medidas ainda mais restritivas adotadas em Maringá. O Café aceitou publicar o relato por entender que parte da população ainda não se deu conta da gravidade da situação.

"Não tem vaga de UTI em nenhum deles [hospitais]. Improvisaram vários leitos de UTI [unidade de terapia intensiva] que também já encheram. Vários pacientes intubados nos PS [prontos-socorros] estão esperando vaga em UTI. Abrimos leitos de UTI no municipal, já encheram. Vai começar a morrer gente sem assistência", relata o médico.
A fala é embasada pelo mais recente boletim da Secretaria Municipal de Saúde. Nesta quinta (4), os leitos de UTI exclusivos covid/SUS haviam atingido 100% de ocupação, e a taxa dos leitos de enfermaria estava em 90,80%. Nos hospitais privados, a ocupação dos leitos de UTI para covid-19 está em 100% faz alguns dias.


O médico diz ter ouvido de uma pneumologista de um hospital particular que, na noite de quinta, um paciente precisou ser ventilado manualmente porque não havia mais respirador disponível. "Não tem mais profissional de saúde para contratar. E os que entram não têm experiência de UTI, com isso cai a qualidade de assistência e mais gente morre", comenta.

A situação só não é ainda mais dramática, em relação às filas, porque as vagas dos pacientes que não resistiram à doença são rapidamente preenchidas por outros doentes em estado grave. Nesta quinta, Maringá registrou 16 óbitos pela covid-19, mas dois dias antes um único boletim havia anotado 18 óbitos

Exaustos pela sobrecarga de trabalho, alguns médicos têm perdido a paciência diante do negacionismo (talvez inspirado pelo presidente da República e seu "mimimi") de parte da população. Um exemplo ocorreu com o sempre moderado Dr. Manoel Sobrinho (PL), médico do município, que criticou com fervor os indivíduos antivacina na tribuna da Câmara Municipal.

"Agora [com mais de 150 mil mortes pela covid-19], vejo uns idiotas soltando na rede social que não é para tomar a vacina. Estamos retroagindo por causa dessa ignorância e burrice", reclamou Dr. Manoel, que é o único médico entre os vereadores da atual legislatura.

Essa ignorância, que prejudica o combate à covid-19, é facilmente notada nas redes sociais. Num grupo de Maringá no Facebook, uma mulher de iniciais M.M., aparentando ter 50 anos, criticou a fala de Dr. Manoel, defendendo a cloroquina e questionando a vacina. "Me prova qual estudo que cientificamente prova que as vacinas tem eficácia?", escreveu M.M.  


Variantes

A suspeita de que o colapso da saúde nos Estados do Sul tem ligação com as novas variantes do coronavírus aumentou, esta semana, após divulgação de comunicado técnico da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). As variantes são mais transmissíveis e, portanto, teriam a capacidade de esgotar os leitos hospitalares num menor intervalo de tempo.

De acordo com estudo do Observatório Covid-19 Fiocruz, 70,4% análises feitas no Paraná apontam para a variante P1, indentificada no Amazonas – saiba mais aqui. É o segundo maior índice, atrás apenas do Ceará, com 71,1%. 


Isolamento

Com as falhas do governo federal que resultaram em atrasos na aquisição de vacinas, a imunização contra a covid-19 – que salvaria vidas num momento tão crítico – segue a conta gotas. Por isso, o isolamento social é apontado por especialistas como imprescindível para frear o ritmo de contágio.

A falta de leitos foi o que levou o governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), por exemplo, a decretar lockdown até segunda (8). Em decreto publicado nesta quinta, o prefeito de Maringá, Ulisses Maia (PSD), ampliou as medidas preventivas, restringindo as atividades essenciais e a circulação de pessoas. 

A expectativa é de que essas medidas resultem na diminuição da taxa de ocupação hospitalar. Para isso, a fiscalização em Maringá tem sido mais rigorosa que em outros períodos da pandemia. Nos três primeiros dias de março, foram realizadas 16 autuações/interdições (veja aqui).


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Graduado em Jornalismo e pós-graduado em Jornalismo Digital, o editor do Café com Jornalista tem 20 anos de experiência na profissão. Especialista na cobertura de política, o jornalista trabalhou nos jornais Diário do Sudoeste, Jornal de Beltrão, Diário do Norte, O Diário de Maringá e Notícias do Dia, onde foi editor-chefe. Foi estagiário na Deutsche Welle (DW), em Bonn (Alemanha), e colaborador da Folha de S.Paulo e Gazeta do Povo. É escritor autor de três e-books: Orfeu e Violeta, Quero Café! e Nas Curvas de Maringá (pesquise na Amazon). Siga no Twitter: @LF_jornalista