terça-feira, 2 de março de 2021

Crônica: O repórter modelo

02/03/2021_

Por Luiz Fernando Cardoso* – A vida é mesmo um sopro. É como uma brisa agradável, que tantas vezes nem sequer é notada. A correria do dia a dia consome nossas energias de tal modo que a fragilidade da vida só é percebida, de tempos em tempos, no momento do luto, do adeus, como foi agora na partida do jornalista Murilo Gatti. 

Murilo Gatti, jornalista
Murilo Gatti, jornalista
Quando você se dá conta, já entrou na casa do "enta". E, por alguma razão celestial da qual discordo com veemência e sem vênia, pessoas boas e queridas por todos se vão aos 40, no meio da vida, para serem veladas por pai e mãe. Murilo partiu na véspera de seu aniversário de 42 anos, que seriam completados nesta terça, dia 2 de março de 2021.


Nas redes sociais, inúmeros profissionais de imprensa prestaram condolências ao externar bons momentos vividos com Murilo, que segue sendo uma referência de bom jornalismo para uma geração de repórteres. Gostei especialmente do comentário de Alan Maschio sobre como era o comportamento do colega na redação do extinto jornal O Diário.

"Quando fui contratado em O Diário, em 2006, havia um movimento 'anti-londrinização' na redação – uma das coisas mais idiotas que eu já presenciei. Murilo, um puta repórter, fuçador, passou alheio a tudo isso. Me acolheu como se eu fosse um amigo de décadas. Os bons são assim: só espalham bondade. E no caso dele, era bondade em todos os sentidos", escreveu Maschio. 
Iniciei minha jornada em O Diário do Norte do Paraná em 3 de janeiro de 2008, e tive a satisfação de trabalhar com ambos. Alan era o editor que mais destinava tempo aos repórteres, tirando dúvidas, trocando ideias sobre a pauta e dando orientações sempre pertinentes. Ajudou-me mais do que talvez ele mesmo saiba. 


Murilo era aquele repórter que, apesar de jovem, já era referência – uma sumidade para os editores. Ele nunca se esquivou de ajudar, com fontes valiosas, os novos colegas que chegavam à redação, como foi o meu caso. Ninguém no Diário tinha tantos contados no Judiciário e no Executivo como ele, e poucos cobriam o Legislativo com sua finesse. Diário oficial, ele estava sempre de olho; processos licitatórios, idem.

Lembro-me que, semanas após ser contratado, o diretor de conteúdo do jornal, Michael Vieira da Silva, chamou-me à sua sala – uma redoma de vidro, que lhe dava visão de toda a redação. Bons tempos aqueles, aliás, de redação lotada. Normalmente, o contato de Michael era com o editor-chefe, à época Wilson Marini, mas ele gostava de ter essa primeira conversa, sem intermediários, com os novatos da redação, visando a conhecer melhor quem se somava à equipe.

Vou transcrever parte do diálogo que tivemos, tal como ainda consigo me lembrar passados 13 anos. Foi mais ou menos assim:

— Então, você é lá de Pato Branco — disse Michael. Para contextualizar, vale lembrar que a personagem Bozena, do seriado "Toma Lá, Dá Cá" (Rede Globo, 2007 – 2009) fazia sucesso na TV aberta, naquela época. 

— Sim, mas faz algum tempo que saí de lá — respondi, informando que, após a graduação em Jornalismo, em 2004, havia morado em Dois Vizinhos (PR), Bonn (Alemanha) e Minaçu (GO), sempre trabalhando na área. 

— Você pretende ficar em Maringá?

— Sim, gosto muito daqui, e quero muito continuar trabalhando no Diário.

Só quem trabalhou no Diário sabe que o jornal, nos idos de 2008, em nada lembrava a decadência de seus últimos anos. Naquela época, havia uma rigorosa seleção para entrar na redação, com prova escrita e, apenas para quem se saísse bem na primeira etapa, um teste prático de uma semana, como free lancer. Era difícil entrar, e era igualmente difícil se manter. Vários não passavam do período de 90 dias de experiência.

— Estamos gostando do seu trabalho. Então, vou te dar uma dica importante para que você continue muitos anos conosco. 

— Sim, e qual é a dica?

— Temos um repórter que se destaca aqui na redação. Ele é sério, rápido, apura e escreve bem. Nunca deu problema. Ele é o Murilo Gatti, e é de repórteres como ele que a gente precisa. Então, você deve tê-lo como exemplo.

Tantos anos depois, fica impossível lembrar com exatidão das palavras que foram ditas naquela conversa inspiradora, mas da mensagem que Michael me passou eu nunca esqueci. Murilo era o patamar que eu desejava alcançar. Quando uma matéria minha virava manchete – ao invés de uma matéria dele –, a satisfação era enorme. A manchete, é bom destacar, está para o repórter de impresso como o gol está para o jogador de futebol.


Na faculdade, cursada lá em Pato Branco, um dos professores costumava dizer que o jornalista de jornal impresso tem condições de trabalhar em qualquer outro meio de comunicação (rádio, TV, internet) ou assessoria de imprensa, mas que o contrário nem sempre era verdade. Murilo é a prova de que a teoria daquele professor estava certa. Além de O Diário, Murilo brilhou na Rede Massa (SBT), onde chegou a ser editor-chefe, e foi um dos fundadores do excelente portal Maringá Post.

Acho injusto que alguém tão talentoso, do bem, se vá tão cedo. Murilo vai fazer muita falta por aqui. Contudo, ouvi falar que lá no plano celestial havia uma vaga disponível para jornalista fora de série, desses que servem de referência para os colegas, e que o Todo Poderoso estava com dificuldade para preenchê-la. Sabe como é, Deus é muito exigente, só aceita os melhores.

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Editor do Café com Jornalista, Luiz Fernando Cardoso é jornalista e escritor, autor dos e-books de crônicas "Orfeu & Violeta", "Quero Café!" e "Nas Curvas de Maringá", todos publicados na Amazon. Conheça os livros aqui.

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* Os artigos não refletem, necessariamente, a opinião do Café com Jornalista, que os reproduz em exercício da atividade jornalística e amparado pela liberdade de expressão. (Do editor)



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Um comentário:

  1. Lindas palavras, Luiz Fernando. Esta homenagem faz juz ao querido Murilo Gatti. E para quem não o conheceu, pode visualizar um pouquinho da pessoa rara que foi. Um forte abraço. Parabéns pela crônica linda e sensível.

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Editor

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Graduado em Jornalismo e pós-graduado em Jornalismo Digital, o editor do Café com Jornalista tem 20 anos de experiência na profissão. Especialista na cobertura de política, o jornalista trabalhou nos jornais Diário do Sudoeste, Jornal de Beltrão, Diário do Norte, O Diário de Maringá e Notícias do Dia, onde foi editor-chefe. Foi estagiário na Deutsche Welle (DW), em Bonn (Alemanha), e colaborador da Folha de S.Paulo e Gazeta do Povo. É escritor autor de três e-books: Orfeu e Violeta, Quero Café! e Nas Curvas de Maringá (pesquise na Amazon). Siga no Twitter: @LF_jornalista