sábado, 2 de janeiro de 2021

'Os Passos Vermelhos de John': romance baseado em Maringá é sucesso de crítica

02/01/2021_

Café com Jornalista – Respeitadas as devidas proporções, a Maringá da segunda década deste século remete um pouco à "Geração Perdida", de escritores que viveram em Paris há cerca de cem anos. A safra de jovens e promissores escritores pés vermelhos tem demonstrado seu potencial em obras como "Os Passos Vermelhos de John" (Penalux, 215 páginas), romance que é a dica de leitura do Café para as férias de verão.

O escritor Luigi Ricciardi e os críticos Thays Pretti, Whisner Fraga, José Cláudio e Victor Simião
O escritor Luigi Ricciardi e (abaixo) os críticos Thays Pretti, Whisner Fraga, José Cláudio e Victor Simião – Fotos: divulgação
Escrita por Luigi Ricciardi, a obra de ficção é inspirada na visita do escritor norte-americano John dos Passos (1896-1970) a Maringá, em 1958. Coincidência ou não, Dos Passos foi um dos membros da Geração Perdida de Paris, batizada por Gertrude Stein e popularizada por Ernest Hemingway no livro "Paris é uma festa".

Seria Ricciardi o John dos Passos desta geração? Ainda é cedo para dizer. O que se sabe é que o romance publicado em 2020, o primeiro do autor, já é um sucesso de crítica. Autor de cinco elogiados livros de contos, o londrinense radicado em Maringá parece ter atingido, agora, um outro patamar em "Os Passos Vermelhos de John".


Na história, John dos Passos se apaixona por Maria do Ingá, uma sindicalista e socialista ferrenha, bela cabocla migrante do Nordeste. No encalço de John está um agente da KGB, que tem ordem para matá-lo por ser um traidor do regime soviético. Essa trama caiu no gosto do crítico literário Whisner Fraga, do canal Acontece nos Livros.

"Partindo de um fato histórico e até certo ponto banal, que é a visita de John dos Passos [a Maringá], Luigi constrói uma história instigante, de paixão e de crimes (...). É interessante como o escritor maneja bem os diferentes conflitos, as diferentes visões sobre princípios socialistas e capitalistas e as consequências como a defesa de uma ou de outra forma de arranjo econômico traz aos personagens", comenta Fraga.
Quem também aprovou a obra foi o crítico literário José Claudio, que conheceu o romance de Ricciardi por meio do jornalista e ensaísta Victor Simião – um dos representantes da "Geração Perdida de Maringá".

"A inserção de um escritor famoso com uma trajetória dentro da nova cidade foi um artifício muito interessante, já utilizado por outros autores como Silviano Santiago no seu Machado. É uma forma de tirar o personagem de seu congelamento biográfico, e conferir vida, conferir contradições a esse indivíduo, o tornando realmente humano", analisou José Cláudio. 
O romance tem leitura recomendada pela escritora Thays Pretti, mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). "O primeiro romance do Luigi mostra um amadurecimento muito grande no campo da literatura, e acredito que ele esteja cada vez mais concretizando e estabelecendo seu estilo", diz Thays.


Anunciado como novo secretário municipal de Cultura e conhecido por suas mediações na Festa Literária Internacional de Maringá (Flim), Simião assegura aos leitores que o romance de Luigi é garantia de entretenimento e conhecimento neste início de ano.

"Os Passos Vermelhos de John apresenta duas características que considero fundamentais: a boa escrita e a boa história. Sem contar que se passa em Maringá, e há personagens ali que a gente identifica, num jogo de espelhos entre o que é verdade e o que não é", comenta Simião.

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O autor

Ricciardi conta ao Café que a ideia de "Os Passos Vermelhos de John" partiu do escritor Ademir Demarchi, maringaense radicado em Santos. "Em uma conversa de bar, ele me revelou que o escritor John dos Passos teria passado por Maringá", lembra o autor.


Fã da Geração Perdida de Paris e também de John dos Passos, Ricciardi aproveitou o "gancho" (como se diz na expressão jornalística) para iniciar suas pesquisas sobre a inusitada visita. Na etapa de estudos, o escritor conta ter recebido apoio do historiador João Laércio na busca de mais informações sobre a suposta existência de uma cabocla de beleza ímpar, chamada Maria do Ingá.

"A trama foi se amarando. O caminho estava aberto para um livro de ficção menos calcado na força de fatos históricos propriamente ditos", conta Ricciardi.  
Mestre e doutor em Literatura, Ricciardi é professor de francês e de literatura e crítico literário. Da "meia-noite às seis", mantém o site de crítica literária Acrópole Revisitada e, ao contrário dos escritores da "Geração Perdida" dos anos 20 do século passado, conta com Google em suas pesquisas.

"Os Passos Vermelhos de John" pode ser adquirido na Amazon e no site da editora Penalux, por cerca de R$ 40.  


Geração Perdida

Nota do editor do Café, Luiz Fernando Cardoso, sobre Luigi Ricciardi, sua obra e a comparação com a "Geração Perdida": 

A comparação de um jovem grupo de escritores que vivem em Maringá e que, volta e meia, tomam um bom expresso juntos em alguma cafeteria da cidade (incluindo o bom Café Literário), com a famosa "Geração Perdida" de Paris pode parecer exagerada, mas não é. Vou explicar.


Ninguém sabe ao certo aonde esse promissor grupo de jovens escritores – nascidos em outros cantos do país e radicados em Maringá – pode chegar. Nos idos da "Geração Perdida", também não se sabia o destino daqueles jovens escritores de vários países, curtindo a vida em Paris. Exceto por James Joyce, que já experimentava a fama com a publicação de "Ulisses", os demais ainda não passavam de ótimas apostas.

Correspondente internacional à época, Hemingway era um jornalista vivendo o dilema de largar o jornalismo para se dedicar inteiramente à literatura. Duvido que ele mesmo acreditasse que, décadas depois, o conjunto das suas obras literárias fossem reconhecidas com o Nobel de Literatura. 

Vejo "Geração Perdida de Maringá" – perdida de amores pela literatura, em meio a uma sociedade emburrecida pelas fake news – um potencial avassalador. O amigo Luigi, que foi meu professor de francês, é o expoente desta geração, que também conta (entre vários outros nomes) com Victor Simião e Thays Pretti, ele de Umuarama e ela, de São Paulo capital. 

Dias atrás, o jornalista e escritor maringaense Laurentino Gomes faturou o Prêmio Jabuti de Literatura 2020 com a obra "Escravidão", feito que ele já havia obtido em 2008 com o livro "1808". Não duvido que, num futuro não tão distante, o Jabuti fique com algum dos membros da "Geração Perdida de Maringá". E o Nobel? Também não duvido.




Fim de Ano com Café

Esta reportagem faz parte da série de matérias "Fim de Ano com Café", com votos de um feliz 2021, sem coronavírus e com muita alegria, paz, amor e dinheiro no bolso. Com agradecimento especial aos apoiadores do Café, os quais têm suas mensagens de fim de ano publicadas nas matérias.  

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