sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Crônica: O leite condensado nos libertará

29/01/2021_

Por Luiz Fernando Cardoso* – "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará", disse Jesus a judeus que haviam crido nele. Essa é a famosa passagem bíblica de João 8:32, também conhecida por ser o versículo que o presidente Jair Bolsonaro repete à exaustão, talvez por ainda não ter decorado qualquer outro trecho da Bíblia.

Um dos inúmeros memes sobre os R$ 15 milhões gastos com leite condensado
Um dos inúmeros memes sobre os R$ 15 milhões gastos com leite condensado
Dizem os teólogos que a Bíblia é viva. Não importa quanto tempo se passe, as escrituras sagradas continuam sempre a nos ensinar (e impressionar). Esse é o caso de João 8:32, com as aspas de Jesus ganhando um sentido ultracontemporâneo quase 2.000 mil anos depois. Parafraseando aquele versículo, pode-se dizer: "E conhecereis o leite condensado, e o leite condensado nos libertará".


Qualquer brasileiro que tenha visto o noticiário nos últimos dias já sabe: o governo federal gastou, só em 2020, R$ 15 milhões com leite condensado. Contudo, antes criticar, lembre-se de outra passagem das escrituras: "Aquele que não tiver se deleitado com uma lata de leite condensado atire a primera pedra" (parafraseando João 8:1-11). O ensinamento, claro, aplica-se aos derivados do produto, como aquele cobiçado pudim do fim de semana. 


Dizem que foram compradas 2,5 milhões de latas do produto. Um estoque para santo nenhum botar defeito. Obviamente, não era tudo para o presidente e sua família. Nem o ser mais guloso alcançaria tamanha proeza consumista. Nem o Homem-Formiga conseguiria. Ao que parece, a compra foi destinada aos órgãos sob comando do Executivo federal. Falam as más-línguas que nos quartéis já não se usa mais açúcar para adoçar o café.

Claro, o episódio não passaria batido sem os memes. Afinal, é por isso que pagamos o boleto da internet. Num dos mais divertidos, soldados aparecem pintando um meio-fio com uma latona de Leite Moça, fato que, segundo o autor da brincadeira, explicaria a compra tão avantajada do produto para o Exército. Gostei ainda mais de um outro meme, com a seguinte frase: "Todo mundo reclamando que o governo pagou R$ 15 milhões em leite condensado; o Corinthians pagou R$ 23 milhões no Luan. Pelo menos, leite condensado é bom".

Ô se é! O produto é tão palatável que é capaz de ativar nossa memória afetiva. O assunto me fez lembrar de um acontecimento da tenra idade, quando meus pais me levaram para conhecer o mar pela primeira vez. Na viagem de Pato Branco a Matinhos, passamos por Curitiba para visitar meus tios Jacir e Loiva. Tenho apenas vagas lembranças dos momentos na praia, mas me recordo como se fosse hoje daquele café da manhã em que tia Loiva abriu uma lata de leite condensado para adoçarmos o café. Uma experiência sensacional, aos olhos de uma criança. 


Leite condensado é algo tão viciante que o próprio presidente segue passando o produto no pão, mesmo depois de alcançar a terceira idade. Quem nunca? O problema é que as pessoas com "histórico de atleta" (só que não), como é o caso do seu Jair, precisam redobrar os cuidados com o nível de glicose no sangue. Diabetes é coisa séria e, em tempos de pandemia do novo coronavírus, ninguém quer uma comorbidade a mais para chamar de sua.


Li no Wikipédia que há registros da venda de leite condensado no Brasil desde a década de 1870. E, 1885, a Nestlé já anunciava o produto em jornais do Rio de Janeiro. Nos primórdios, o produto era industrializado e comercializado apenas em latas. Hoje, graças ao jeitinho brasileiro, é possível adquiri-lo também em caixinhas Tetra Pak e em cédulas de R$ 100 e R$ 200 – dependendo do apetite do comprador e do volume adquirido. Como não possuo cartão corporativo, eu compro o de caixinha mesmo, uma unidade por vez.

Divagações à parte, voltemos à polêmica aquisição feita pelo governo Bolsonaro. Num vídeo que circula na internet, o presidente rebateu as críticas da compra milionária durante um almoço com apoiadores numa churrascaria de Brasília, dizendo que a ex-presidente Dilma Rousseff comprara mais leite condensado que ele. Com a educação que lhe é habitual, o presidente mandou a imprensa "enfiar no rabo" as latas de leite condensado. De bate pronto, a turma deu um tempo no pasto, digo, no churrasco, para aplaudir o xingamento e gritar "mito".

Diz o ditado que "onde há fumaça há fogo". A julgar pela descompostura do presidente na fala aos jornalistas, tem gente suspeitando que possa ter havido alguma irregularidade naquela "ida ao supermercado". É uma soma a ser investigada. Querendo ou não, o gasto do Executivo federal com alimentos, no total de R$ 1,8 bilhão apenas em 2020, daria para curtear 250 mil auxílios emergenciais de R$ 600 por mês, durante um ano, nos cálculos do amigo jornalista Victor Duarte Faria

Na história recente do Brasil, um Fiat Elba motivou o impeachment que pôs fim ao mandato de um presidente incapaz de governar. O vice assumiu, o Plano Real surgiu e a vida no Brasil – sem a hiperinflação de antes – melhorou. Agora, em tempos de um negacionismo que custou milhares de vidas na pandemia, será o leite condensado a nos libertar? Obrigado Deus pela democracia e pelo Portal da Transparência, amém! 


Quero Café! Crônicas de uma saudosa redação de jornal. Autor: Luiz Fernando Cardoso
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Editor do Café com Jornalista, Luiz Fernando Cardoso é jornalista e escritor, autor dos e-books de crônicas "Orfeu & Violeta", "Quero Café!" e "Nas Curvas de Maringá", todos publicados na Amazon. Conheça os livros aqui.


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Graduado em Jornalismo e pós-graduado em Jornalismo Digital, o editor do Café com Jornalista tem 20 anos de experiência na profissão. Especialista na cobertura de política, o jornalista trabalhou nos jornais Diário do Sudoeste, Jornal de Beltrão, Diário do Norte, O Diário de Maringá e Notícias do Dia, onde foi editor-chefe. Foi estagiário na Deutsche Welle (DW), em Bonn (Alemanha), e colaborador da Folha de S.Paulo e Gazeta do Povo. É escritor autor de três e-books: Orfeu e Violeta, Quero Café! e Nas Curvas de Maringá (pesquise na Amazon). Siga no Twitter: @LF_jornalista