terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Crônica: Big Brother Brasil 119

26/01/2021_

Por Luiz Fernando Cardoso* – Você do futuro, peço um pouco de sua atenção! O ano é 2019.

Um dólar vale em torno de R$ 3,80; o salário mínimo de fome no Brasil subiu de R$ 954 para R$ 998 no governo Bolsonaro (R$ 8 abaixo do valor previsto no orçamento de 2019); carros elétricos ainda são raros; os políticos mantêm gordos salários e avantajados benefícios; as ações da Vale despencaram após o criminoso desastre em Brumadinho (MG) – enquanto escrevo, inúmeros corpos seguem soterrados nos rejeitos de minério de ferro –; o homem ainda não pisou em Marte; ovo faz bem à saúde; banha de porco é mais saudável que óleo de soja; o lanche prensado de Maringá segue sendo o melhor do planeta; e o Big Brother Brasil (BBB) chega à sua 19ª edição.


Vivemos numa época em que youtubers são tão populares entre os jovens quanto os poetas foram em outra época. Isso talvez explique o fato de termos grandes livrarias em recuperação judicial, editoras demitindo, jornais fechando as portas e bibliotecas vazias. Enquanto isso, os "heróis mais vigiados do Brasil" garantem fabulosa audiência à principal emissora de TV do País. São 18 anos consecutivos de BBB, sendo que o primeiro ano contou com duas edições.


Dia desses, um grupo de cientistas descobriu que é possível diagnosticar alzheimer antes do surgimento da doença. Outros pesquisadores chegaram à conclusão que beber café diariamente pode prevenir alguns tipos de câncer. Para você, que vive num futuro em que alzheimer e câncer provavelmente sejam doenças curáveis, isso pode não parecer grande coisa, mas para nós, meros mortais do passado, são fatos a serem comemorados.

Do ponto de vista tecnológico, os avanços são inegáveis. Meus avós, por exemplo, só viram energia elétrica e água encanada quando já eram adultos. Nem fogão a gás tinham. Contudo, apesar das inovações, em alguns momentos temos a impressão de ter retrocedido à Idade Média. Você, caro leitor do futuro, pode acreditar que o povo do meu tempo acabou de eleger um presidente que mede negros por arroba e que não empregaria mulher com o mesmo salário de homem? E, pasme, milhares de mulheres votaram nele! Procura aí nos livros de história para confirmar. O cidadão se chama Jair Bolsonaro, e tem um vice general mais esperto que ele. Como estamos vivendo a história, não faço ideia de como ela vai terminar, mas a impressão é de que são poucas as chances de um final feliz.

A julgar pelos avanços tecnológicos, entre eles o acesso cada vez mais facilitado à informação, os retrocessos não se limitam à política. No Facebook, num grupo de jovens escritores do qual sou membro, tive a petulância de questionar se um escritor tem a obrigação de sempre escrever corretamente, ainda que seja nas redes sociais. Os mais jovenzinhos do grupo se ofenderam. Querem escrever de qualquer jeito, porque "o que importa é ser entendido". Não sofri qualquer agressão física, já que o grupo é virtual, mas saí da discussão com o fígado doendo. Alguém se consultaria com uma nutricionista obesa ou com um dentista banguela? Então, por que alguém leria um escritor com péssima ortografia?

Escrevo esta crônica da mesa de uma cafeteria, na calçada da Avenida Brasil de Maringá. Adocei meu café com adoçante, porque açúcar engorda e pode causar diabetes. Espero que, no futuro, não tenham concluído que adoçantes causam câncer, assim como ocorreu com o cigarro. Aliás, será que a maconha já foi liberada no Brasil do futuro? E o aborto? Aqui, esses ainda são assuntos dos mais polêmicos.

— Fernando, aceita mais um café? — perguntou Val, a atendente e proprietária da pequena cafeteria, que costuma me chamar pelo segundo nome.

— Quero sim, apesar do calor — respondi. Neste verão, temos enfrentado temperaturas próximas de 40°C com alguma regularidade. Nem quero imaginar o calorão que tem feito no futuro.

Enquanto aguardava a segunda xícara de café preto, fui abordado por um vendedor ambulante.

— O senhor precisa de meias e cuecas? — questionou o vendedor, um senhor de pele morena do sol, aparentando ter entre 55 e 60 anos de idade.

— No momento, não preciso, obrigado — respondi, sendo sincero.

De fato, estava usando cueca e meias naquela tarde, mas o vendedor, pelo visto, não compreendeu a brincadeira. Seguiu seu rumo em ritmo acelerado e debaixo de sol forte. Provavelmente, um desses youtubers favoritos dos adolescentes ganha mais do que um pai de família trabalhador. Pois é, assim é o passado de pouca leitura e muito zap zap, o qual me esforço para retratar, enquanto aguardo pelo cafezinho.


Voltando ao BBB, sempre que o programa começa eu apanho o controle remoto e troco de canal. Com tanta opção na TV a cabo, há seguramente algo mais útil passando do que a vida dos "famosos anônimos" dentro da casa. Alguns exemplos: um bom jogo de futebol; o Mundo Visto de Cima, no Mais Globosat; telejornais nos canais de notícia 24 horas; Irmãos à Obra, com suas cozinhas em conceito aberto, no Discovery Home & Health; os fabulosos comerciais da panela flavorstone, no canal da Polishop; ou mesmo o programa Alienígenas do Passado, da History Channel. Achar algo mais interessante que BBB é mais fácil que pentear o cabelo, posso assegurar.

Aliás, sobre os programas mencionados, nutro imensa curiosidade sobre quando os alienígenas, finalmente, farão contato – se é que já não o fizeram, e os governos mantêm em sigilo. Nesse seu futuro um tanto distante, imagino que ao menos Marte vocês já tenham colonizado. Sabe como é, com nossos políticos, a raça humana não pode correr o risco de ter apenas a Terra como opção.

Para mim, o melhor BBB continua sendo o "bom, bonito e barato". Nada de gastar em demasia. Com as excessivas incertezas do nosso tempo, nunca é demais ser precavido e economizar. As expectativas não são das melhores, tanto é que, com menos de dois meses de governo, muito eleitor do Bolsonaro já tem dito que votou em Amoedo – um banqueiro de direita, obviamente. Isso me faz lembrar do ex-presidente Collor, que perdeu milhares de eleitores, quando o governo confiscou a poupança do povo. Daquele momento em diante, muitos pobres de direita se envergonharam da confiança cega depositada em Collor. O curioso é que histórias assim se repetem de tempos em tempos. 

Et voilà, Val acaba de trazer o aguardado cafezinho. Diz ela que foi passado na hora. Então, fico por aqui. São essas minhas considerações sobre um passado remoto que, para mim, ainda é o presente. Espero que o brasileiro tenha evoluído como cidadão e eleitor, que em seu tempo professores ganhem mais que deputados, que homofobia seja algo condenável, que a corrupção tenha diminuído, que os livros não tenham sido extintos e, por fim, que o vencedor da 119ª edição do BBB seja aquele que mais precise do dinheiro do prêmio para pagar os boletos. Uma coisa é certa, boletos sempre vão existir!

Orfeu & Violeta: E outras histórias lá de Pato Branco. Autor: Luiz Fernando Cardoso
Orfeu & Violeta: E outras histórias lá de Pato Branco – clique para ler! 
Editor do Café com Jornalista, Luiz Fernando Cardoso é jornalista e escritor, autor dos e-books de crônicas "Orfeu & Violeta", "Quero Café!" e "Nas Curvas de Maringá", todos publicados na Amazon. Conheça os livros aqui.

PS.: Esta crônica foi publicada em 31 de janeiro de 2019 no blog de crônicas do jornalista. Na época, tinha início na TV o BBB 2019.

Destaques do blog de crônicas

☕ Um tweet de Ana Paula



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Um comentário:

  1. Amei sua crônica, Luiz. Divertida e realista. O episódio do "escritor escrevendo errado nas redes sociais" é sério. Eu já vi alguns. O pior de tudo é estes são os que mais se exibem como "escritores". Abraços

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Editor

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Graduado em Jornalismo e pós-graduado em Jornalismo Digital, o editor do Café com Jornalista tem 20 anos de experiência na profissão. Especialista na cobertura de política, o jornalista trabalhou nos jornais Diário do Sudoeste, Jornal de Beltrão, Diário do Norte, O Diário de Maringá e Notícias do Dia, onde foi editor-chefe. Foi estagiário na Deutsche Welle (DW), em Bonn (Alemanha), e colaborador da Folha de S.Paulo e Gazeta do Povo. É escritor autor de três e-books: Orfeu e Violeta, Quero Café! e Nas Curvas de Maringá (pesquise na Amazon). Siga no Twitter: @LF_jornalista