domingo, 13 de dezembro de 2020

Especialistas temem que negacionismo prejudique vacinação contra a covid-19 no Brasil

13/12/2020_

Café com Jornalista, com Agência Senado – Notícias recentes dão conta de que a vacinação contra o novo coronavírus (covid-19) já começou em alguns países, entre eles Reino Unido e Rússia. Atrasado na campanha de vacinação, na comparação com as nações cientificamente mais desenvolvidas, o Brasil tem pela frente um adversário surreal: o negacionismo. 

Em paralelo às medidas adotadas para iniciar a imunização dos brasileiros – uma delas é a aprovação no Senado de R$ 1,995 bilhão para a compra de uma das vacinas –, crescem nas redes sociais as manifestações antivacina. Boa parte das críticas partem de indivíduos que, no início da pandemia, minimizavam a doença, replicando o discurso irresponsável da "gripezinha".

Cartaz de documentário da Netflix sobre terraplanistas e foto de prisioneiros de campo de concentração nazista. Café com Jornalista
Cartaz de documentário da Netflix sobre terraplanistas e foto de prisioneiros de campo de concentração nazista – Imagens: reprodução e Arquivo Estatal de Filme e Fotografia de Belarus
Não são poucas as manifestações públicas de pessoas idiotizadas que afirmam, categoricamente, que não vão se vacinar. Algumas, não contentes com a própria estupidez, atacam nas redes sociais as pessoas que defendem a vacinação em massa como meio de superar de vez a pandemia.

Nesse embate entre o terraplanismo e a ciência, especialistas temem que o primeiro prejudique a vacinação no Brasil contra a covid-19. É o que revela uma reportagem de fôlego de Ricardo Westin para a Agência Senado. Publicada na sexta-feira (11), a matéria deu voz a experts em epidemiologia, saúde pública e a pesquisadores que estudam o negacionismo. 

Professor do Departamento de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Fernando Hellmann diz que o negacionismo preocupa porque ele gera desinformação sobre a aplicação em massa de vacinas. Ao longo da história, diz o pesquisador, as vacinas estão entre as medidas que mais salvaram vidas humanas.

"A varíola, que matou nada menos do que 300 milhões de pessoas no planeta entre 1900 e 1979, hoje está erradicada graças à vacinação. O óbvio, portanto, seria que as pessoas depositassem plena confiança nas vacinas criadas pela ciência e avalizadas pelas autoridades sanitárias", diz Hellmann.

Terraplanismo

A seita negacionista que tomou o Brasil – e que causa vergonha alheia aos brasileiros lúcidos – tem como maior expoente na prática de negar o inégável o terraplanista. Essa é a pessoa que, apesar de todas as evidências e provas físicas e astronômicas, quesiona tudo e todos ao afirmar que a Terra é plana. Nessa turma de cidadãos intelectualmente desafortunados, as teses antivacina são recorrentes e variadas.


De acordo com a reportagem, pesquisa feita pelo Datafolha, em 2019, apontou que 7% dos entrevistados acima de 16 anos diziam acreditar na Terra plana. Pasmem: o equivalente a 11 milhões brasileiros!

"Mesmo quando ainda não havia vacinas contra a covid-19 no horizonte, o negacionismo já prejudicava o controle da atual pandemia", diz trecho da reportagem. "Pessoas têm colocado em dúvida a gravidade da doença e se recusado a seguir as medidas de proteção pregadas pelas autoridades médicas, científicas e governamentais, como usar a máscara e não fazer aglomerações", acrescenta Westin.

Entre os casos mais recorrentes de negacionismo histórico estão os imbecilizados que insistem em negar que não houve holocausto na Segunda Guerra Mundial. No entanto, o próprio governo alemão reconhece o genocídio – principalmente de judeus – no período nazista.

Teorias conspiratórias

É difícil, mas não é impossível entender o que há por trás de tanta debilidade mental. Segundo o fisósofo Pablo Ortellado, professor na Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação Digital, a crença em teorias conspiratórias causa nessas pessoas um sentimento de gratificação.

"Elas se sentem como uma espécie de vanguarda, pois estariam enxergando mais longe, vendo o que os outros não conseguiriam ver. Isso lhes traz satisfação. Mas é claro que esse elemento psicológico não é suficiente para explicar o negacionismo. Mais estudos precisam ser feitos", diz Ortellado.
As teorias conspiratórias, às vezes, acabam sendo impulsionadas por publicações sérias. Foi o que ocorrem em 1998, quando a renomada revista científica The Lancet publicou um artigo que assegurava que a vacina tríplice viral, que combate o sarampo, a caxumba e a rubéola, poderia causar autismo em crianças.


Em 2004, quando foi descoberto que a pesquisa se tratava de uma fraude, o estrago já estava feito. Muitos pais já não aceitavam mais vacinar seus filhos. Até hoje aquele episódio alimenta fake news sobre as vacinas.

Interesses econômicos

Há também o negacionismo motivado não pela burrice, mas por interesses políticos e econômicos. Esse parece ser o caso de grandes empresas que negam o aquecimento global, por exemplo, para seguir explorando combustíveis fósseis sem sanções. 

"Quem defende que não existe aquecimento global quer continuar explorando os recursos naturais de forma predatória. Quem prega que existem conspirações internacionais mirabolantes contra o Brasil, busca cultivar um nacionalismo exacerbado para manter a base eleitoral coesa e mobilizada. Isso é muito negativo, entre muitas outras razões, porque estimula a polarização, o fanatismo e até a violência", diz o senador Humberto Costa (PT-PE), que é médico e foi ministro da Saúde.

Fake news

O negacionismo e as teorias conspiratórias talvez sejam tão ou mais antigas que a roda. Contudo, ganharam um alcance jamais visto em razão das redes sociais e, em especial, dos aplicativos de mensagens instantâneas. Segundo a reportagem, "as fake news, que são mentiras ou meias verdades travestidas de notícias sérias, conseguem dar a volta ao mundo em questão de segundos".


Uma pesquisa de opinião conduzida pelo Ibope, pouco antes do início da pandemia, revelou o quão os brasileiros estão suscetíveis às fake news. Na pesquisa, 24% dos entrevistados disseram que acreditariam numa notícia que dissesse que "há boa possibilidade de as vacinas causarem efeitos colaterais graves" e que 20% afirmaram que tomariam como verdadeira a informação de que "há boa possibilidade de as vacinas causarem a doença que dizem prevenir". Ambas as afirmações são falsas.

"Quando são pautados por mentiras, os cidadãos não têm como tomar decisões adequadas. Eles, por exemplo, podem ser levados a acreditar numa ameaça que não existe e votar baseados no medo", diz o professor Hellmann.
De certa forma, foi o que aconteceu nas Eleições de 2018, com a "ameaça comunista". É o que ocorre agora com a Coronavac, a vacina da farmacêutica chinesa Sinovac. Nos discursos mais alucinados, os doidos de plantão alegam que os chineses criaram a vacina de propósito para causar mortes.

A campanha de vacinação contra a covid-19 terá entre os seus maiores desafios, portanto, mentes que vivem na Idade Média.


Livro Orfeu & Violeta. Amazon. Luiz Fernando Cardoso. Café com Jornalista

>>> Eleições 2020

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Graduado em Jornalismo e pós-graduado em Jornalismo Digital, o editor do Café com Jornalista tem 20 anos de experiência na profissão. Especialista na cobertura de política, o jornalista trabalhou nos jornais Diário do Sudoeste, Jornal de Beltrão, Diário do Norte, O Diário de Maringá e Notícias do Dia, onde foi editor-chefe. Foi estagiário na Deutsche Welle (DW), em Bonn (Alemanha), e colaborador da Folha de S.Paulo e Gazeta do Povo. É escritor autor de três e-books: Orfeu e Violeta, Quero Café! e Nas Curvas de Maringá (pesquise na Amazon). Siga no Twitter: @LF_jornalista