sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Artigo: Natal, pandemia e saúde emocional

25/12/2020_

Por Rubem Mariano* – O que mais tenho ouvido dos meus amigos e clientes é a seguinte frase, a respeito do momento pelo qual passamos e vivemos, sobre o novo coronavírus (covid-19): "Não aguento mais esse vírus". Sinceramente essa frase precisa e necessita de uma reflexão mais cuidadosa psicologicamente.

Foto: Freepik
Antes, porém, ressalto que situações de confinamento, de restrição e limitação de movimentos aumentam os níveis de estresse, ansiedade, depressão e humor oscilante. Contudo, esses tipos de transtornos podem ser enfrentados, amenizados, com atitudes preventivas. Busque viver o aqui e agora do ambiente em que você se encontra.

Desenvolva atividades diversificadas – cognitivas, afetivas e motoras – com outras pessoas do mesmo grupo familiar (observe sempre os cuidados adequados e evite sempre que possível o toque na boca, nariz ou nos olhos), animais de estimação e o contato com a natureza, se não pode ter contato, olhe a natureza, isso mesmo, olhe para o verde das arvores de sua janela. Seu cérebro agradece.


Pois bem, voltemos ao assunto. Uma criança dizer: "mãe, eu não aguento mais ficar sem brincar com meus amigos ou dormir na casa dos meus coleguinhas, deixa mamãe?" É extremamente normal ou compreensivo (as famílias próximas têm que se conversar para buscar saídas juntas); afinal, o mundo para uma criança, imaginamos, só está começando. Ela ainda não compreende as coisas e o mundo a sua volta. Tal situação ocorre porque ela ainda não reúne, do ponto do desenvolvimento humano, todas as condições adequadas para discernir e, assim, agir como se espera de uma pessoa já devidamente desenvolvida física, cognitiva, mental, moral e emocionalmente. Temos que cuidar ainda mais das nossas crianças, neste momento. Esse papel é do adulto e tem que continuar.

Agora, quando ouvimos essa frase da boca de um adulto: "Não aguento mais esse vírus". Precisamos entender melhor o que isso revela sobre esse momento e, principalmente, sobre aquele que a pronuncia. Assim, por princípio geral de oficio, como psicólogos e psicólogas, nosso olhar está voltado atenciosamente para a manifestação comportamento através de palavras ou de comportamentos dos seres humanos. Entendemos que essas manifestações, sejam elas quais forem, são de um determinado indivíduo que as produz.

As ideias, os pensamentos, as palavras e os comportamentos são expressões de construtos psicológicos constituídos e construídos de uma vida toda que se desenvolve de uma determinada maneira. A cultura, o contexto, o meio ambiente e social são elementos importantíssimos que influenciam a nossa personalidade, nosso jeito de ser. 

Assim, é necessário nos perguntarmos: isso ocorre com todas as pessoas, ou seja, todas as pessoas estão falando a mesma coisa, "não aguento mais esse vírus", no mesmo tom emocional e que expresse o mesmo sofrimento psíquico? Essa afirmação pode revelar, em última estância, um estado de coisas que sinaliza um limiar rebaixado de frustação? Explico melhor.


Como estou num espaço público, através deste veículo de comunicação, observo e peço, caro leitor(a) que também assim o faça. Vivemos em uma sociedade diversificada, que prega a autonomia e a liberdade humana. Valores arraigados e, indiscutivelmente, crido por boa parte das pessoas no mundo, em especial, no mundo Ocidental. Impor limites ou restringir espaços, ações ou palavras soam, de forma objetiva, um grande contrassenso. Você deve concordar comigo. E agora?

Reflita mais uma pouco comigo: o que faz com que tenhamos o bom senso de observar limites, ações, atitudes em prol da coletividade em detrimento do individual ou do particular? Compreendo, que quando a vida de cada uma dessas pessoas está em jogo, inclusive a nossa própria, com altíssimo risco real de morte e não como um simples número estatístico ou classificações do tipo "grupo de risco".

Na realidade, o que ocorre é como se a humanidade estivesse jogando uma roleta russa. Esse vírus pode matar qualquer um; seja essa pessoa rica ou pobre, branca ou preta, homem ou mulher, religiosa ou agnóstica, magra ou gorda, saudável ou doente, criança, jovem, adulta ou idosa, a mais inteligente dos seres humanos ou a mais ignorante, com ou sem deficiência, política ou apolítica, hétero, homo, bissexual, ou orientação que seja.

Essa realidade chegou, infelizmente, para todos. Nesse sentido, estamos diante de um fenômeno "democrático" como nunca havíamos vivido; claro e evidente, que as condições financeiras, sociais e de saúde adequadas podem possibilitar um melhor enfrentamento, mas não nos garante, de maneira nenhuma, a vitória. Porque não se tem ainda parâmetros científicos ou coisa que lhe falha para dizer que essas condições podem de fato frear essa onda de horror que assola toda humanidade.

Nesse sentido, nós adultos precisamos crescer emocionalmente. É urgente. Precisamos apreender a enfrentar os nossos problemas, amadurecer, sair do mundo faz de conta que esse vírus não existe. Pura negação, diria o doutor Freud. De negar o que não se pode negar; como não se pode politizar tudo; como não se pode espiritualizar tudo; como não se pode relativizar tudo; como se pode subestimar ou superestimar tudo; como não se pode achar que nunca precisaremos de uma outra pessoa um dia para nos ajudar.


É Natal. Ele chega trazendo uma doce melodia de esperança através da estrela de luz, O MENINO JESUS, que avisa aos homens e mulheres que desejam ser de boa vontade promovam efetivamente a paz na Terra. Para isso, devemos nos irmanar num profundo espírito de fraternidade humana, como nunca antes, em que a vida humana, não tem rosto, todos somos iguais, dos que dormem nas mansões ou nos barracos. 

O Natal é o anúncio da vida: evangelho – Boa Notícia! Ele aponta para a esperança da vida que nasce e não da morte que nos arrodeia diariamente levando os nossos familiares, amigos, conhecidos ou não pelo novo coronavirus. 

Este Natal faz um convite especial para celebrarmos realmente a vida em meio a morte. Pode parecer um discurso piegas, mas neste momento é preciso que cresçamos, reunamo-nos as nossas forças em prol da vida humana indistintamente sem credo, raça, gênero ou bandeira política; assim como o menino Jesus um dia cresceu "em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens" (Lc. 2.52) para cumprir a sua missão da boa notícia aos sobrecarregados pelas injustiças do sistema do Império Romano e à expectativa da vinda da justiça de Deus através dos homens e das mulheres de boa vontade, do passado e do hoje. 

Que assim seja! Que tenhamos um amadurecimento psicológico como adultos, para que unidos possamos enfrentar às adversidades desta vida. Como seres humanos, desenvolvamos a nossa adultez, conforme observa a teoria da "adultez emergente", de Jeffrey Arnett. Essa teoria aponta características específicas de um adulto que se espera diante do presente momento: exploração da identidade (buscar o autoconhecimento), instabilidade (reconhecer limites), pelo autofocus (nossos próprios objetivos), pela vivência do sentimento in-between (viver em relacionamentos saudável) e pela percepção de possibilidades múltiplas (reconhecer caminhos e alternativas necessários). 


Use as redes sociais. Envie abraços e beijos virtuais neste Natal e fim de ano. Assim, poderemos comemorar muitas outras festas, juntos uns dos outros, nos próximos anos. Feliz Natal e um próspero ano novo.

* Rubem Mariano é teólogo, psicólogo e filósofo.

Livro Orfeu & Violeta. Amazon. Luiz Fernando Cardoso. Café com Jornalista

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Graduado em Jornalismo e pós-graduado em Jornalismo Digital, o editor do Café com Jornalista tem 20 anos de experiência na profissão. Especialista na cobertura de política, o jornalista trabalhou nos jornais Diário do Sudoeste, Jornal de Beltrão, Diário do Norte, O Diário de Maringá e Notícias do Dia, onde foi editor-chefe. Foi estagiário na Deutsche Welle (DW), em Bonn (Alemanha), e colaborador da Folha de S.Paulo e Gazeta do Povo. É escritor autor de três e-books: Orfeu e Violeta, Quero Café! e Nas Curvas de Maringá (pesquise na Amazon). Siga no Twitter: @LF_jornalista