segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Artigo: "Perdas", talvez deva ser o título

30/11/2020_

Por Tania Tait* – Lembro da sensação da primeira vez que perdi um amigo. Eu tinha 15 anos, ele 16. Quando minha prima me disse que ele tinha morrido num acidente, a minha resposta foi: "Não, você está enganada, a gente estava jogando bola ontem à tarde". Como se o fato de ter estado com ele na tarde anterior não significasse que ele poderia partir a qualquer momento.

Imagem: Revista Bras.il
Houve uma comoção muito grande no colégio. Éramos adolescentes diante de um acidente que tirou um de nós do convívio diário. Também tínhamos perdido uma professora, anos antes, que morrera no parto. Aí, foram se seguindo outras perdas: avós queridos, tios e a vida seguindo.


Quando morreu a primeira mãe da minha turma de amigos, eu, entristecida, comentei com meu pai. A resposta dele foi curta: "As gerações vão se acabando, a vida é um ciclo, daqui a pouco seremos nós". E, depois foram se seguindo outras perdas, coisa da vida, cada qual no seu tempo. Ele, meu pai, companheiro e amigo, também se foi.

De repente, com a idade, a presença nos velórios foi se tornando mais constante. Coisas da vida. 

E chegamos a 2020, diante de uma pandemia que ceifa vidas, implacavelmente. Não se trata mais de "gerações que vão se acabando" no ritmo normal da vida, mas de pessoas que estão morrendo contaminadas por um vírus avassalador.


Dia 27 de novembro foi um dia tristemente dolorido. Perdemos dois companheiros de militância de movimento social e do Partido dos Trabalhadores (PT), Jadilsso e Seu Arlindo – um por Covid e o outro, por câncer. Me vieram à mente outra perda recente, do Zumbi, e perdas mais distantes no tempo, como do Zé Cláudio e da Rose Zanardo. Militantes de décadas de atuação conjunta tanto no movimento social como partidário, na alegria das vitórias e nas tristezas.

Sem perceber, nos tornamos uma família que luta por uma sociedade justa, igualitária e fraterna. Muitos de nós começaram sua vida política por meio da participação nas pastorais e nas comunidades eclesiais de base da Igreja Católica, no movimento feminista, no movimento estudantil, no movimento popular ou sindical.

Alguns muito próximos, outros mais distantes, vimos os filhos crescerem, casamentos se desfizeram, outros se fizeram. Muitos se diplomaram na universidade, outros na vida, alguns foram pioneiros em suas áreas, alguns conquistaram mandatos políticos, outros não. Vibramos juntos, sofremos juntos.


O elo que nos une não é o sangue, é o elo da busca por uma sociedade em que as pessoas tenham direitos e sejam felizes.

Quando penso nesses companheiros que se foram, me vêm à mente muitos momentos compartilhados que nem as fotos existentes conseguem captar. Foram risos, lágrimas, brincadeiras e assuntos sérios que nos moveram e mantiveram unidos.

Livro Orfeu & Violeta. Amazon. Luiz Fernando Cardoso. Café com Jornalista

Sabemos que eles fizeram história e colocaram suas vidas para o bem comum. Nos resta reverenciá-los com todo respeito.

#TodosetodasPresente
#JadilssoPresente
#SeuArlindoPresente
#ZumbiPresente
#RoseZanardoPresemte
#ZéClaúdioPresente

* Coordenadora da ONG Maria do Ingá Direitos da Mulher, Tania Tait é escritora e professora aposentada da UEM, com doutorado em Engenharia de Produção pela UFSC e pós-doutorado em História pela UEM. Seu mais recente livro é "As Mulheres na Luta Política" (2020).

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