segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Entrevista – Patrícia Bezerra: 'A gente vive numa sociedade conservadora e preconceituosa em relação à mulher na política'

07/09/2020_

Café com Jornalista – Quando o assunto é a representatividade feminina na política, as Eleições de 2016 foram marcadas por um fato bastante curioso. Enquanto os maringaenses não elegeram nenhuma mulher para o parlamento local, os paulistanos escolheram uma psicóloga maringaense para a maior Câmara Municipal do Brasil.

Nascida em Maringá, Patrícia Bezerra (PSDB) foi a mulher mais votada entre as 11 eleitas para a Câmara de São Paulo, que tem 55 parlamentares. Psicóloga de formação, Patrícia recebeu 45.285 votos, boa parte deles em reconhecimento aos mais de dez anos de trabalho social como gestora de uma entidade na periferia da Zona Leste. A segunda mulher mais bem votada naquele pleito, Soninha (PPS), fez 40.113 votos.

Vereadora maringaense por São Paulo, Patrícia Bezerra. Café com Jornalista
Patrícia Bezerra, vereadora maringaense pela cidade de São Paulo – Fotos: Arquivo pessoal
Ex-secretária municipal de Direitos Humanos e Cidadania na gestão de João Doria (PSDB), hoje governador, Patrícia tem se destacado na produção legislativa, sendo autora de leis de proteção à gestante, mulher e criança, como a  Lei do Parto Humanizado no Sistema Único de Saúde (SUS); e leis de proteção à dignidade humana, como a que combate o trabalho análogo ao de escravo  na cidade.


Menos conhecida do que deveria entre os seus conterrâneos, Patrícia ganhou notoriedade em São Paulo – além da expressiva votação nas urnas – por presidir e relatar comissões parlamentares de inquérito (CPIs), como a que investigou a exporação sexual de crianças na capital paulista e a que investigou os planos de saúde. Essa atuação rendeu a ela o título de melhor vereadora mulher de São Paulo pela ONG Voto Consciente, ao fim da Legislatura 2013-2016.

Na semana passada, Patrícia fez uma pausa em suas atividades para participar de um debate virtual sobre a "A Importância de uma Bancada Feminina na Câmara Municipal". A live foi organizada pelo movimento suprapartidário "Mais Mulheres no Poder", que tem entre seus objetivos a eleição de uma bancada feminina para o Legislativo municipal.

Segundo Patrícia, a ausência de mulheres na Câmara de Maringá não é uma exceção. Em 25% das cidades brasileiras, apenas homens ocupam as cadeiras do Legislativo municipal, mesmo as mulheres sendo maioria tanto na população quanto no eleitorado. A vereadora por São Paulo falou sobre a baixa representatividade feminina na live. Agora, ela fala sobre esse problema social também ao Café com Jornalista...


***

Café com Jornalista – Maringá não elegeu nenhuma mulher para a Câmara Municipal. Como a sra. avalia essa situação de falta de representatividade feminina no Legislativo?
Patrícia Bezerra – Temos, na verdade, uma representação da mulher ainda incipiente no Brasil como um todo. Somos mais de 52% do eleitorado e da população brasileira. Nós, mulheres, somos a maioria, mas isso não sê vê representado nas câmaras municipais nem nas assembleias legislativas nem no Congresso Nacional. Um quarto das câmaras municipais não tem presença feminina no Brasil. Então, Maringá está nessa estatística.

O que leva um município a eleger apenas homens para a Câmara Municipal?
A questão do machismo e das questões estruturais são o agravante central. Com certaza, isso deve ser um traço mais forte da sociedade maringaense, que dificulta a entrada da mulher na vida pública. Acompanho um pouco do cenário da cidade porque minha mãe vive aí [em Maringá] e meus irmãos vivem aí, então, vejo como é o comportamento político da cidade. As reações da cidade em relação a alguns temas. Existe, sim, uma manifestação muito mais conservadora [que nas metrópoles], e isso corrobora para não favorecer o sucesso da mulher no pleito.


"Reações da cidade em relação a alguns temas". Fale mais a respeito...
Embora tenhamos tido muitos avanços nos últimos anos, que precisam ser comemorados, a gente ainda vive numa sociedade extremamente patriarcal, conservadora, misógina e preconceituosa em relação ao papel da mulher na sociedade; extremamente violenta contra a mulher, e os números de feminicídio não negam; e que coloca a mulher em segundo plano na política, como se não fosse o lugar de a mulher estar. O lugar político sempre foi muito afeito à figura masculina, sempre nessa perspectiva, como a forma de se trabalhar a coisa eleitoral pelos próprios partidos, tanto que tivemos de ter garantias de cota e de fundo eleitoral para ter o mínimo de compatitividade, para ter uma concorrência possível dentro das legendas. A partir daí você vê a dificuldade para a mulher se colocar no pleito político, para se colocar como candidata. 

Qual é o lugar da mulher?
Para muitos [conservadores], o lugar da mulher é na família, dentro da escola, quando muito sendo enfermeira, não vendo a mulher como uma pessoa potente, competitiva e apta para fazer o trabalho no Executivo e no Legislativo. A mulher tem todas as faculdades e competências para estar onde ela quiser e escolher estar, por vocação e aptidão, inclusive a de estar em casa, desde que seja por escolha dela. A gente só vence preconceitos com debate e informação, e acho que é isso que a gente precisa fazer agora para ter um número significativo de mulheres no poder. 


Qual é a realidade atual na Câmara de São Paulo em relação à representatividade feminina?
Na Câmara Municipal de São Paulo, de 55 vereadores, hoje são apenas nove mulheres, ou seja, 16,4% do total. Em 2016, foram eleitas 11, porém, a Samia foi para a Câmara dos Deputados e uma vereadora está licenciada, ocupando o cargo de secretária municipal. Foi um resultado acima da média nacional e do habitual da capital. Sempre se teve entre quatro e seis vereadoras. Foi um aumento significativo.

A Casa já teve mulher na presidência?
Não, nunca! Assim como não tem como presidentes mulheres as comissões consideradas de maior relevância na Casa.

Você chegou a compor o governo Doria na Prefeitura de São Paulo. Como foi a experiência?
Foi muito importante para a minha carreira política. Participar do Executivo da maior cidade da América Latina é um desafio que agrega muita bagagem, te faz amadurecer politicamente o que você levaria dez anos legislando no parlamento. São Paulo é uma cidade imensa, assim como suas desigualdades. Existem abismos sociais na mesma cidade, no mesmo bairro, inclusive, e fazer a gestão de uma realidade tão caótica é uma tarefa árdua que faz você ser confrontado com a realidade, sair da zona de conforto, quebrar paradigmas, vencer preconceitos e pensar de forma a construir uma sinergia que contemple cada indivíduo em suas necessidades. Vivi momentos de aprendizado que vou levar pra toda a minha vida, e, a despeito de todas as divergências ideológicas, devo isso ao então prefeito e hoje governador [João Dória, PSDB].

Não é surreal Maringá não ter uma vereadora em sua Câmara, mas ter uma filha sua na maior Câmara Municipal do país?
Por incrível que pareça, não. É natural que São Paulo, sendo uma cidade com características de metrópole e cosmopolita, tenha também segmentos mais preparados para receber a candidatura feminina como legítima. 40% das famílias brasileiras dependem, exclusivamente, da mulher financeiramente. São os chamados "arrimo de família". Geralmente, essas mulheres se concentram nos grandes centros, assim como os 44% do mercado formal compostos por mulheres. Por essas características, as grandes cidades têm por vocação serem mais progressistas no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade e, por essa razão, a representatividade é maior. Mas ainda estamos muito aquém de uma representação paritária, inclusive nos grandes centros.


Livro Orfeu & Violeta. Amazon. Luiz Fernando Cardoso. Café com Jornalista

Como você avalia as políticas para mulheres no Brasil de hoje?
Como sempre digo, temos que sempre celebrar as conquistas e os avanços, marcos legais e históricos como: voto, divórcio, pílula, Lei Maria da Penha, Lei do Feminicídio, cotas partidárias, garantia de fundo eleitoral, aborto em caso de estupro, aborto em caso de anencefalia. Todos esse foram direitos conquistados através de muita luta. Mas há ainda muito por fazer.

O que falta fazer, por exemplo...
Existem ainda muitas falhas nas execuções das leis, principalmente no que diz respeito à Maria da Penha. A rede protetiva ainda deixa muitas brechas, e é necessário investimento e destinação de rubrica orçamentária para que realmente haja uma estruturação da execução da lei em território nacional. Aquilo que é prioridade num governo tem de vir acompanhado de investimento, se não constar do orçamento é porque é demagogia. É necessário também haver, dentro desse contexto, um investimento massivo em capacitação e geração de emprego e renda. Ninguém rompe ciclos de violência sem autonomia emocional e financeira, e o Estado precisa prover isso. É nosso papel.


Recentemente, você participou de uma live organizada pelo movimento "Mais Mulheres no Poder". Pra encerrar, gostaria de deixar alguma mensagem às pré-candidatas?
Às mulheres que estão concorrendo às eleições em Maringá, queria deixar uma palavra de ânimo. Queria dizer que é extremamente significativo esse ato de coragem que elas estão tendo de romper com as suas fragilidades e medos, porque não é fácil sair da sua zona de confronto para enfrentar todo o preconceito, o machismo e a misoginia do outro. O fato de você enfrentar tudo isso para se posicionar, imbuída de um senso de missão, desejosa de uma transformação para uma cidade mais justa e equânime para todos, sobretudo para os que mais precisam, fazer isso para buscar justiça, é extremamente louvável. Por isso, sendo mulher maringaense, fiz questão de apoiar o movimento. É imensurável o valor de você.  





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