quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Artigo: Suicídio, tabu e juventude: vamos falar sobre isso?

10/09/2020_

Por Rubem Mariano* – Como se diz popularmente: "o bisturi está para o médico, como o ouvir e o falar estão para o psicólogo". Os resultados terapêuticos significativos do trabalho psicológico são provas incontestes do uso desses dos instrumentos.

Uma boa conversa – implica ouvir e falar principalmente quando se tem uma estrutura e metodologia adequadas – pode sim resultar em transformações muito positivas sobre a saúde mental das pessoas. Por isso, é de extrema importância falarmos sobre suicídio, não somente neste mês de setembro, mas sempre, sempre, insisto, sempre!

Artigo: Suicídio, tabu e juventude: vamos falar sobre isso? Café com Jornalista

Contudo, ainda há muitos tabus que imperam na sociedade brasileira, que infelizmente contribuem para o aumento dos números significativos de problemas com fim fatal, como é o caso, entre outros, da morte por suicídio no mundo e no Brasil. Já no final do século 20, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertava para esse tipo de morte. Na década de 1990, a entidade criou diretrizes para prevenção de suicídio e, depois de 15 anos, em 2011, por exemplo, já haviam mais de 25 países fazendo parte dessa força-tarefa pela vida, ou seja, pensado e falando sobre suicídio.


Hoje, temos informação da ocorrência de uma morte por suicídio a cada 40 segundos no mundo e, no Brasil, uma a cada 45 minutos. No Brasil, a cada morte registrada se tem dez tentativas. Esses números podem ser ainda maiores. Em 2012, eram 800 mil mortes no mundo; hoje, em 2020, elas chegam a 1,5 milhão. 

Entre esses números estarrecedores, observa-se o crescimento exponencial entre a juventude. Segundo Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio atinge todas as faixa-etárias e sexo, com crescimento expressivo entre os mais jovens – de 15 a 29 anos. Entre meninas é a segunda causa de mortes, perdendo apenas para as complicações na gravidez; e a terceira entre meninos, depois de acidentes de trânsito e violência. 

Mais da metade dos casos de morte por suicídio no mundo (52,1%) ocorre entre pessoas com menos de 45 anos, ou seja, jovens adultos e de força produtiva experiente, serias consequências para a economia e o meio social. 

Apesar dos números ainda elevados, eles têm tido uma queda de forma global, é verdade, em quase 10%. Contudo, infelizmente, a região das Américas, entre elas o Brasil, foi a única que houve crescimento – uma alta de 6%, conforme a OMS. 


Nesse sentido, observa-se que o Brasil carece de políticas públicas no combate ao suicídio. É importante destacar, ainda, que no Brasil, assim como em outros países das Américas, a maior mortalidade por suicídio cresce mais acelerado entre os mais jovens, de ambos os sexos, sendo a maior variação para o sexo masculino e faixa etária entre 20 a 29 anos de idade, apontam estudos recentes.

Os fatores de predisposição, as chamadas causas do suicídio, podem ter aspecto invariável devido a sua complexidade, não sendo apenas de associação aos acontecimentos recentes que possam vitimar uma pessoa, como, por exemplo, a perda do emprego ou um rompimento amoroso. Essas situações podem disparar os chamados "gatilhos".

No Brasil, entre 1959 a 2001, tivemos 15.629 suicídios ocorridos na população geral, sendo que em mais de 90% dos casos apontam a possibilidade diagnóstica de transtorno mental (depressão, TAG etc.).  E ainda podemos ressaltar vários outros fatores, como: socioculturais e econômicos, bem como elevada frequência de sofrimento mental e de uso abusivo de bebidas alcoólicas.

Sobre os jovens, especificamente, estudos recentes sinalizam que, além das mudanças e conflitos que costumam ocorrer nessa fase da vida, eles enfrentam cobranças dos pais, amigos e da sociedade. Também vivem em isolamento, não somente social, por causa do novo coronavírus, mas por causa do uso excessivo das tecnologias, que têm isolado as pessoas umas das outras e também têm feito sofrer através do cyberbullying, que tem enraizamentos muito rápidos numa sociedade virtual que posta, julga e condena. Assim, os jovens têm sido atingidos pelas duas maiores doenças incapacitantes do mundo na atualidade: a depressão e a ansiedade, conforme revelam estudos.


Segundo American Psychiatric Association: quando se fala em suicídio, pode-se entender: 1. Intenção suicida: expectativa e desejo que um ato autolesivo resulte em morte; 2. Ideação suicida: pensamentos intrusivos de servir como agente de sua própria morte; 3. Tentativa de suicídio: comportamento autolesivo com consequências não fatais; 4. Tentativa abortada de suicídio: comportamento potencialmente autolesivo com evidências, a qual foi interrompida antes do dano ocorrido; 5. Letalidade do comportamento suicida: ameaça objetiva para a vida; 6. Suicídio: morte autoprovocada com evidências (explícitas ou implícitas).

Principalmente nesse caso (item 6), "prevenir é melhor do que remediar", sem dúvida nenhuma, até porque se o ato for consumado, não haverá volta, infelizmente. Assim, o sofrimento psíquico é o vencedor; por isso, é importantíssimo falarmos sobre isso.

Prevenção é fundamental. Ela tem de ocorrer tendo como exemplo maior os poderes governamentais e não governamentais; através de políticas públicas adequadas e contextualizadas, bem como a realização de parcerias, especialmente, ligadas ao terceiro setor. Mais ainda, os profissionais da saúde devem se capacitar e se habilitar nesse enfrentamento; não podem se deixar levar pelo tabu ou conhecimentos que não expressam a realidade daquele que é acometido pelo sofrimento psíquico e suas consequências, os quais são comuns a esse quadro em potencial para o suicídio.

Na prevenção, temos os seguintes procedimentos: 1) Procure conhecer sobre o que é, as causas, as consequências, forma preventivas e procedimentos terapêuticos sobre o suicídio; 2) Leia tudo que puder, informe-se com profissionais especializados, como: médicos psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, dentre outros; 3) Informe-se se a pessoa a quem você quer ajudar tem algum tipo de problema médico, psiquiátrico, psicológico ou socioeconômico; 4) Crie um ambiente de acolhimento para proporcionar vinculação. Ajude essa pessoa a resolver questões práticas com a finalidade de tirá-la do estado de crise e sofrimento psíquico que se encontra; 5) Outra questão importantíssima: observação é fundamental. A pessoa que oferece risco de se suicidar, sempre dá alguma pista, principalmente quando se encontra deprimida; ela dá objetos queridos, faz testamento, isola-se, retira-se dos ambientes de socialização, fica se despedindo das pessoas, tem mudança de humor sem causa aparente, usa de forma abusiva drogas, não tem esperança, tem problemas com falta de sono, é impulsiva, ansiosa; também dá pistas verbais, como: "estou cansada da vida", "ninguém me ama" ou, ainda, até fala que tem um plano para se suicidar. 


Livro Orfeu & Violeta. Amazon. Luiz Fernando Cardoso. Café com Jornalista

Por isso, perguntar é fundamental. Não acredite nisso: "quem fala, não faz!" Isso não é verdade: quem fala, faz sim! Quem verbaliza, concretiza sim. Por fim, procure contatar um profissional ou entendidas especializadas para uma ajuda mais assertiva, profissional e objetiva.

Última questão. Quando estiver com uma pessoa suspeita para cometer suicídio, procure lembrar de uma única coisa se você não lembrar das orientações acima, e isso, certamente, já produzirá um excelente resultado nela: "Seja tão somente um ser humano ouvido e falando com um outro ser humano". Isso funciona, mesmo!  


Por isso – SUICÍDIO – vamos falar sim sobre isso! Falar sempre é fundamental, quando mais falarmos menos tabu, mas conhecimento teremos. Quero lembrar, por fim, que já enfrentamos outros tabus, como aids e câncer, por isso, falar sempre é a saída para produzirmos uma ajuda efetiva e eficaz. Lembre-se disso e viva a vida!


* Teólogo, filósofo e psicólogo (CRP - 08/14994) e mestre em Ciências da Religião, Rubem Almeida Mariano é autor dos livros "Alcoolismo e Pastoral" (Editora Voz) e "Aconselhamento Cristão" (Editora Unicesumar). Atualmente, cursa doutorado em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Contato: (44) 98837-6156 (whatsapp business).



>>> Sobre o Café
>>> Sobre o Jornalista
>>> Cafeinado
>>> Maringá
>>> Política
>>> Economia
>>> Geral
>>> Entrevistas
>>> Artigos
>>> Imprensa

* Os artigos não refletem, necessariamente, a opinião do Café com Jornalista, que os reproduz em exercício da atividade jornalística e amparado pela liberdade de expressão. (Do editor)



A página do Café no Facebook superou a marca de 3.000 curtidas na Sexta-feira Santa, em 10 de abril, graças aos leitores assíduos que apoiam o blog. Para ser informado sobre novas matérias publicadas, curta você também e convide seus amigos para curtir. Clique aqui.


Para receber as últimas notícias do Café com Jornalista no seu WhatsApp é muito fácil. Basta enviar para o número acima a mensagem "Quero Café", informando seu nome e sua cidade de origem. Seu número será, então, adicionado a uma lista de transmissão dos seguidores do blog. A qualquer momento, você poderá cancelar a inscrição. 
Merece:

0 comentário(s):

Postar um comentário