sexta-feira, 24 de julho de 2020

Artigo: A empatia está fora de moda

24/07/2020_

Regina Daefiol* – Meu ginecologista solicitou uma série de exames de rotina, entre eles ultra-sonografias de alguns órgãos. Liguei para uma das maiores clínicas de diagnóstico por imagem de Maringá para agendar o atendimento. "A senhora prefere médico ou médica", perguntou a atendente. Pensei comigo: melhor seria uma mulher, que não só conhece como também possui a mesma anatomia que eu.


No dia marcado fui, entrei na sala de exame, me preparei e deitei, aguardando. A porta se abriu e a médica entrou. Apesar da máscara no rosto em função dos cuidados exigidos em época de pandemia, dava para perceber que era jovem. Começou o exame depois de um seco "boa tarde". Em silêncio foi percorrendo meu abdômen com o frio aparelho de ultra-sonografia.


Num dado momento, quando estava sobre um dos meus rins, começou a me fazer perguntas que estranhei. Vi, pela tela do equipamento, que sobre as imagens ela marcava alguns pontos e transmitia instruções para que sua auxiliar no exame registrasse. Como qualquer leigo, que tem todo o direito de saber o que um médico está observando ao examinar o seu corpo, perguntei se havia algum problema com o meu rim.

Secamente, a jovem médica respondeu: "um cisto". Fiquei em silêncio, esperando que viesse algum outro tipo de explicação – como já aconteceu em outras vezes em que passei por esse exame e que o examinador encontrou algo diferente. Como a médica nada mais disse, arrisquei: "é algo sério?". Secamente, ela respondeu: "normalmente não". E só. E prosseguiu com o exame, sem se preocupar com o que eu estava pensando ou sentindo depois de sua fala.

E mais. O próximo exame era uma ultrassonografia transvaginal, aquela que mulher nenhuma gosta de fazer porque significa ser penetrada por um estranho objeto, situação nada confortável. A jovem médica simplesmente introduziu o aparelho sem nenhuma palavra, muito menos um pedido de licença como outros médicos e médicas – esses bons conhecedores do termo empatia e do significado da palavra respeito – já fizeram em exames semelhantes pelos quais passei.


Terminada a exploração ultrassonográfica do meu corpo, não tive dúvida: esperei o laudo para ver se havia algum termo que eu pudesse pesquisar ou me dar uma pista sobre o significado daquele achado no meu rim. Cheguei em casa, pesquisei.

Confesso que apelei ao Google, que nesses casos sei que é péssimo conselheiro, mas tive sorte de encontrar alguns artigos acadêmicos na área de radiologia e descobrir que um cisto simples, como constava no laudo, era algo corriqueiro em minha idade. Estivesse a empatia na moda e nada disso seria necessário. Bastava uma ou duas palavras da sisuda médica. Tão jovem!

Fico me perguntando o que está sendo ensinado a esses médicos e médicas nos bancos da academia. Será que o conhecimento técnico da profissão é tão enorme que ocupa todos os espaços do cérebro, não sobrando nada para o sentir-se humano diante de seu semelhante? Ou será que esta geração esqueceu que, antes de tudo, somos todos humanos?

Livro Orfeu & Violeta. Amazon. Luiz Fernando Cardoso. Café com Jornalista

E o que dizer de uma mulher, ao examinar outra mulher, agindo como se ali não estivesse alguém que sente os mesmos desconfortos que ela sentiria? A empatia é mesmo um artigo fora de moda. Demodê, antiquada, eu em esperar encontrá-la assim, dando sopa, num ambiente em que um ser humano se sente uma grande autoridade por deter um conhecimento técnico.


Pobre jovem médica! Terá ainda muito a aprender pelo caminho da vida. Como tenho empatia, desejo que ela aprenda de maneira suave.

* Regina Daefiol é jornalista e historiadora


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