domingo, 14 de junho de 2020

Entrevista – Iraides Baptistoni: "O servidor só será bem representado se souber votar"

14/06/2020_

Nas eleições deste ano, Maringá corre o risco de retroagir na escolha de seus representantes políticos, assim como ocorreu nas Eleições de 2018. A impressão é da servidora municipal e líder sindical Iraides Baptistoni. "A população precisa saber escolher bem os seus representantes", diz.

Iraídes Baptistoni, Maringá. Café com Jornalista
Servidora de carreira, Iraídes presidiu o Sismmar por duas gestões – Foto: Arquivo/Sismmar
Este é um dos assuntos abordados pelo Café nesta entrevista com Iraides, servidora da Prefeitura de Maringá desde 1988 que, atualmente, desempenha a função de supervisora de ensino na Escola Municipal Professor Midufo Vada.


Boa parte da sua trajetória foi construída na luta sindical. Secretária de Finanças da Federação dos Sindicatos de Servidores Públicos Municipais Cutistas do Paraná (Fessmuc), Iraides foi presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Maringá (Sismmar) por duas gestões (2011-2015 e 2015-2019), tendo ainda participado da diretoria da entidade nas gestões das ex-presidentes Patrícia Lofrano (2008-2009) e Solange Marega (2009-2011).

À frente do Sismmar, Iraídes participou de momentos históricos da entidade e da categoria, como a inauguração da nova sede do sindicato, o pagamento da ação da trimestralidade, a aprovação da Lei contra o Assédio Moral e o retorno das eleições para diretores da rede municipal de ensino. Essas e outras conquistas estão registradas no livro "Sismmar 30 Anos de Luta!", publicado em 2018.

Entre 2001 e 2003, na gestão do prefeito José Cláudio (PT), Iraides foi gerente administrativa na Secretaria Municipal de Educação (Seduc). Em 2016, disputou uma cadeira na Câmara de Maringá, sendo a quarta mulher mais bem votada na cidade. Obteve 1.432 votos, mais que a soma de três prefeituráveis daquele pleito: Investigador Nilson (PSOL), com 417 votos; Priscila Guedes (PSTU), 289; e Herculano Ferreira (PTdoB), 255.


A servidora afirma que não participará das eleições deste ano, mas diz esperar por boas candidaturas femininas, como deve ocorrer em seu partido, o PT. A expectativa é que as mulheres voltem à Câmara de Maringá que, atualmente, tem apenas homens nas suas 15 cadeiras. 

Entre outros assuntos abordados pelo Café nesta entrevista, a líder sindical fala da perspectiva da volta às aulas nesta pandemia, dos trabalhos realizados pelos professores com os alunos durante o período de isolamento e da postura do prefeito Ulisses Maia (PSD) na crise causada pelo novo coronavírus (covid-19). Sobre sua categoria, ela diz que os servidores poderiam ter conquistado ganho real, e que o atraso na realização da primeira assembleia atrapalhou as negociações na campanha salarial. 


Livro Orfeu & Violeta. Amazon. Luiz Fernando Cardoso. Café com Jornalista

Café com Jornalista – Como foi o retorno dos servidores da Educação nesta pandemia? Quais atividades estão sendo feitas?
Iraides Baptistoni – O retorno às atividades aconteceu após a Seduc elaborar o Plano Emergencial Não Presencial para Educação. Os professores vão para escola em apenas um dia da semana, em hora atividade, para atender os pais, imprimir e corrigir as atividades que os alunos estão realizando em casa. Essas atividades estão sendo planejadas pelos professores em suas casas, em home office.

Como é esse trabalho?
A equipe pedagógica monta uma apostila e os pais vão buscar na escola, um dia para cada ano, com todas as disciplinas para 15 dias. Essas atividades contarão como presença para os alunos. Os professores estão recebendo todas as orientações pelas redes sociais e, havendo qualquer dúvida, perguntam para equipe [pedagógica]. 


Para quando está prevista a volta às aulas nas escolas municipais e nos CMEIs? Vai ser possível concluir o calendário escolar até o fim de dezembro?
Não sabemos ainda quando será esse retorno, mas acreditamos que não será breve, tendo em vista que os casos de covid-19 só aumentam. Tínhamos a perspectiva que, em 3 de agosto, os alunos retornariam para a escola. Pelo visto, não será possível. Quanto ao término do calendário escolar até dezembro, vamos aguardar os acontecimentos dos próximos dias, e verificar como vão evoluir os casos [de covid-19].


Qual sua avaliação sobre as medidas de isolamento social adotadas pelo prefeito Ulisses Maia (PSD) em prevenção à covid-19?
O prefeito tem tentado proteger a cidade, tomando medidas que não estão agradando a todos e todas, mas, mesmo assim, está sendo corajoso e não está se intimidando. Penso que, neste momento, deveria radicalizar mais, pois as pessoas não estão entendendo [os riscos], saindo às ruas e deixando todos vulneráveis ao contágio.

A sra. foi presidente do Sismmar por dois mandatos. Qual é a sua avaliação da atuação do sindicato na defesa da categoria durante a pandemia?
Penso que o sindicato está fazendo a parte dele, está lutando e exigindo os equipamentos de segurança para os servidores, mas sei que não é fácil. A administração, por outro lado, está fornecendo conforme é possível. No entanto, este é um ano de eleições municipais, e o sindicato está tentando desgastar a figura do prefeito, pensando nas eleições. Penso que o sindicato não pode misturar a defesa dos servidores com questões partidárias. Infelizmente, estão misturando as coisas. 


Em março, antes do decreto municipal que impôs o isolamento social em Maringá, o Sismmar negociou para a data-base o reajuste pela inflação de 4,3%. Foi uma boa negociação?
O sindicato começou a campanha salarial dizendo que a Prefeitura tinha dinheiro, e que podia negociar além da inflação. Isso não se concretizou, frustrando os servidores. A administração deu apenas a inflação e os servidores tiveram que se contentar, num momento em que outros municípios não deram nada aos seus servidores. Nós, enquanto ex-dirigentes, ficamos frustrados, pois sabíamos que a administração poderia dar ganho real para os servidores, mas não sabemos como foram as negociações.

Entrevista Iraides Baptistoni. Café com Jornalista

À época, a sra. alertou que o Sismmar demorou a convocar a primeira assembleia da Campanha Salarial? Ao seu ver, isso prejudicou de alguma forma as negociações?
Com certeza. Prejudicou e muito. O sindicato deveria ter convocado a assembleia já no retorno da Educação [no início do ano letivo], chamando para aquele final de semana [a assembleia]. Começaram muito tarde, com a primeira assembleia só em 27 de fevereiro. Não concluíram [as negociações] antes de 1º de março, o que facilitou para administração enrolar o sindicato, não fornecendo ganho real aos servidores. 

Faltou experiência à nova diretoria sindical?
Faltou experiência, pois eles sabiam [da data-base], uma vez que publicamos no meu Facebook a demora para iniciar a campanha salarial. Poderiam ter antecipado a primeira assembleia da campanha salarial. Talvez, teríamos conseguido ganho real em nossos salários.

Qual é a principal dificuldade para um sindicato que tem de representar trabalhadores de várias atividades profissionais, como é o caso do Sismmar?
Realmente, é muito difícil ter de representar uma grande quantidade de categorias. São demandas diferentes e nem sempre temos servidores dessas categorias na direção do Sismmar. Temos de lidar com diversas demandas e dar conta de resolver a todas.

Como a sra. recebeu a notícia de que os servidores terão seus salários congelados, por lei federal, até o fim de 2021?
Muito difícil. Vivemos num momento que precisamos ver nossos salários reajustados, porque lutamos muito para conquistar. De repente, os deputados e senadores resolveram punir os servidores públicos, proposta vinda do governo federal. O sindicato não se manifestou, infelizmente.

Entrevista Iraides Baptistoni. Café com Jornalista

A sra. recebeu 1.432 votos nas eleições de 2016, ficando na 33ª colocação entre os candidatos a vereador mais votados. Vai disputar a vereança novamente?
Fui muito bem nas eleições de 2016, mas pretendo dar atenção à minha saúde, cuidando um pouco mais de mim. Foi bastante desgastante aquela eleição. Portanto, não disputarei o processo eleitoral em 2020. 

Em 2016, a sra. foi a quarta mulher mais votada para a Câmara de Maringá, hoje composta apenas por homens. O que se passa? Mulher não vota em mulher em Maringá?
Realmente, é um processo que precisa mudar em nossa sociedade. As mulheres representam mais de 50% do eleitorado, era para ter mulheres na Câmara de vereadores, mas temos 15 homens.

O que fazer para aumentar a representatividade feminina nas casas legislativas?
As mulheres precisam se colocar para disputar o processo eleitoral. O PT terá mulheres na disputa com condições de se eleger. A professora Vilma, presidente da APP-Sindicato em Maringá; a Vera Nogueira, secretária-geral da CUT e ex-presidente do Sindaen; a Margot, presidente LGBTI; entre outras.

Atualmente, a sra. participa da Fessmuc. Qual sua função e qual é o papel dessa entidade?
Sim, faço parte da Federação dos Sindicatos de Servidores Públicos Municipais Cutistas do Paraná, como secretária de Finanças. Esta federação representa os servidores públicos do Paraná nos seus interesses, inclusive em casos envolvendo a covid-19, cobrando equipamentos de segurança para evitar o contágio. Fazemos diversas interferências nos municípios para proteger os servidores.

Entrevista Iraides Baptistoni. Café com Jornalista

A sra. tem planos de participar de alguma chapa para a disputa do Sismmar daqui três anos e meio?
Vamos acompanhar o trabalho desta direção atual e fazer a crítica, caso necessário, e elogiar, caso mereçam. Os servidores e as servidoras é que decidirão se querem o nosso retorno. 

Que mensagem a sra. deixa aos servidores públicos, tão atacados ultimamente...  
Esperamos que o governo federal não avance nos ataques que vem fazendo aos trabalhadores. E que os nossos representantes – sindicatos, vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidente – consigam trabalhar em benefício dos trabalhadores. Para isso, a população precisa saber escolher bem [votar] os seus representantes. Os servidores só serão bem representados se souberem escolher seus representantes. E isso não se faz do dia para noite. 


Quais são suas expectativas para as eleições deste ano?
Espero muito que os trabalhadores saibam escolher. Este ano, teremos eleição para os municípios, e corremos o risco de retroagir e muito. Estão começando as propagandas, e estou assustada com o que vem pela frente. Já elegemos um presidente da República fascista, racista e antidemocrático. Agora, não podemos eleger um prefeito e vereadores nesse mesmo caminho.



>>> Sobre o Café
>>> Sobre o Jornalista
>>> Cafeinado
>>> Maringá
>>> Política
>>> Economia
>>> Geral
>>> Entrevistas
>>> Artigos
>>> Imprensa

* Matérias e opiniões publicadas no Café com Jornalista estão compreendidas pela atividade jornalística e amparadas pela liberdade de imprensa e de expressão. (Do editor)



A página do Café no Facebook superou a marca de 3.000 curtidas na Sexta-feira Santa, em 10 de abril, graças aos leitores assíduos que apoiam o blog. Para ser informado sobre novas matérias publicadas, curta você também e convide seus amigos para curtir. Clique aqui.


Para receber as últimas notícias do Café com Jornalista no seu WhatsApp é muito fácil. Basta enviar para o número acima a mensagem "Quero Café", informando seu nome e sua cidade de origem. Seu número será, então, adicionado a uma lista de transmissão dos seguidores do blog. A qualquer momento, você poderá cancelar a inscrição.
Merece:

0 comentário(s):

Postar um comentário