domingo, 21 de junho de 2020

Entrevista – Eudes: "Digo por experiência própria, a covid não é uma simples gripe"

21/06/2020_

O Brasil superou, no sábado (20), a marca de 50 mil mortes pelo novo coronavírus. Em meio a uma tragédia marcada por tantas vidas perdidas, famílias assoladas pelo luto, falta de leitos em unidade de terapia intensiva (UTI), profissionais de saúde sobrecarregados e lideranças despreparadas, há um dado a ser comemorado: o número de recuperados.

Eudes Januário com sua família. Café com Jornalista
Eudes Januário comemorou 59 anos, neste domingo (21), com sua esposa e filhos – Foto: Arquivo pessoal
Dos quase 1,1 milhão de casos confirmados, aproximadamente 550 mil venceram a covid-19. Alguns casos são emblemáticos, de pessoas que estiveram muito perto da morte e que, após semanas de internação, com o apoio equipes médicas dedicadas, conseguiram vencer a doença. Um desses casos é do economista natural de Barbosa Ferraz (PR), radicado em Maringá (PR) desde 1978.


Quem lê o Café acompanhou a luta pela vida de José Eudes Januário, 59 anos. Foram 50 dias na UTI do Hospital Municipal de Maringá (HMM), dos quais quase 40 entubado, em coma. Não fosse a estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) e o fato de Maringá ter leitos disponíveis de UTI para todos os casos graves da covid-19, Eudes poderia não estar vivo para contar sua história.

Eudes é economista formado em 1991 pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), com especializações em Marketing e em Economia Ambiental. Foi secretário municipal de Serviços Públicos (na antiga Saop) na gestão do prefeito José Cláudio (PT) e, até antes da pandemia, prestava assessoria a sindicatos e advogados.


Casado com Telma Januário, tem dois filhos, Gabriel e Mariana. Ao lado de sua família, ele contou sua história de superação ao Café. O que será que ele sentiu quando estava em coma? O que pensou ao despertar da sedação? O que ele tem a dizer sobre o novo coronavírus? Veremos a seguir.

***

Café com Jornalista – Como foram os primeiros sintomas da covid-19? Quanto tempo levou até o sr. procurar uma unidade de saúde?
José Eudes Januário – Tive um resfriado por volta do dia 22 de março, mas a falta de ar foi o que me levou a procurar mais informações, isso no dia 29. No dia 30, fui à Unidade Básica de Saúde (UBS) do Quebec, e logo fui encaminhado para a UPA Zona Norte, onde recebi medicação e passei duas noites. Minha saturação [de oxigênio] havia melhorado, mas, no dia 1º de abril, meu estado piorou e fui encaminhado diretamente para a UTI do Hospital Municipal. Já saí da UPA Zona Norte sedado e entubado.


Em qual momento o sr. se deu conta de que a situação era realmente grave: quando teve falta de ar ou quando decidiram te encaminhar para a UTI?
Chegando no Hospital Municipal, eu já estava sedado e entubado. Não tive a noção da gravidade, pois estava sedado, mas as informações é de que eu estava com 80% dos meus pulmões comprometidos. Nesse momento, iniciou a administração de antibióticos e antivirais como azitromicina, tamiflu e outros antibióticos de amplo espectro. Nos 50 dias de UTI, tive duas paradas cardiorrespiratórias, na madrugada de 9 para 10 de junho.

Foram 50 dias na UTI. Nessa onda de liberalismo econômico e Estado mínimo, o sr. acredita que o seu caso serve como exemplo para ressaltar a importância do SUS e da saúde pública de qualidade?
No período de 50 dias de UTI, houve uma atenção por parte da equipe médica, enfermeiras, auxiliares de forma exemplar. Apesar da falta de investimentos no SUS, entendo que a equipe que cuidou de mim mostrou que é possível garantir saúde pública e gratuita de qualidade.


Do período em que o sr. esteve em coma, há alguma lembrança? Lembra de ter tido sonhos?
No período em que eu estava sedado, as informações anteriores são de relatos da minha família. Não tenho nenhuma lembrança ou sonho, só comecei a me dar conta do que tinha acontecido por volta de 8 de maio, quando já estava livre dos respiradores e da febre que me acompanhava há vários dias. 

Levou alguns dias para o sr. despertar da sedação. Quando voltou do coma, quais foram suas primeiras palavras?
Foram cerca de 15 dias para eu despertar da sedação, o que causou algumas dúvidas, mas acho que eu estava querendo é dormir mesmo. Isso é preguiça. No final, correu tudo bem.

No 40º dia de UTI, a equipe médica o levou para um bando de sol, o que foi muito comemorado. Amigos estavam lá fora, de longe, para lhe saudar. Como foi aquele momento?
Emoção pura. Chorei muito, apesar de estar totalmente debilitado, pois havia perdido cerca de 30 kg de meu peso corporal. Não tinha massa muscular para sustentar meu corpo. Ver meus amigos, parentes, filhos, esposa, irmãos me saudando foi algo que não tem como descrever.


Como tem sido sua recuperação? Inclui fisioterapia e uso de medicamentos?
Minha recuperação, em casa, inclui fisioterapia todos os dias, inclusive domingos e feriados. E também suplementos alimentares, além de ter sido acompanhado por uma fonoaudióloga e uma nutricionista.

O sr. acredita que a contaminação possa mesmo ter ocorrido naquela prestação de contas do vereador Mário Verri (PT) ou há algum outro momento suspeito?
Não é possível precisar as datas. Não há segurança para essa afirmativa e, segundo os médicos, naquele momento da minha internação já havia a transmissão comunitária [quando não é mais possível localizar a origem da infecção].

Após a alta, obviamente, o sr. procurou se informar do que ocorreu aqui fora no período de sua internação. Quais notícias daquele período chamaram mais a sua atenção?  
A corrente que se formou em função de minha pessoa, parentes, amigos, anônimos, que se dispuseram a iniciar uma corrente positiva e de muitas orações.


O sr. está novamente na ativa nas redes sociais. Pela sua história de luta pela vida, o que o sr. sente ao ver algumas pessoas minimizando a covid-19?
Digo e afirmo, por experiência própria, que não é uma simples gripe. [O coronavírus] É sério e mata. Uma simples gripe não te deixa 50 dias na UTI. Hoje, temos mais de 50 mil mortes no Brasil por absoluta falta de planejamento em conter o vírus por parte do governo federal.

Nas redes sociais, o sr. já voltou a ser o Eudes de sempre, criticando as barbaridades do atual governo. Dadas as circunstâncias, qual sua opinião sobre os pedidos de impeachment do presidente Bolsonaro?
Ao dificultar quem estava fazendo alguma coisa para conter o vírus, com ações irresponsáveis, colocando parte da população contra profissionais de saúde, para justificar sua incompetência em não apresentar nenhum plano de contenção do vírus, por absoluta falta de liderança. Quanto ao impeachment, seria o ideal [contemplar] a chapa eleita Bolsonaro/Mourão, pois a questão é a política adotada por um governo sem direção, sem planejamento, sem proposta para saúde, a não ser acabar com o SUS. Não há proposta para economia, isto é, para o desenvolvimento do país. Não há proposta para educação, ou seja, [Bolsonaro] foi eleito numa onda de ódio, preconceito e desinformação.

O sr. foi secretário na gestão do prefeito José Cláudio (PT). Além disso, quais foram suas experiências na vida pública?
Fiz parte da gestão José Claudio e João Ivo como presidente do extinto Saop [hoje, Semusp]. No decorrer da gestão, assumi a Secretaria de Meio Ambiente e Agricultura, uma experiência imensa, pois nossa gestão assumiu com um propósito de recuperação da nossa Maringá, que vinha da mão do PSDB e seus aliados, que haviam comprometido e roubado cerca de R$ 100 milhões na época, com [o prefeito] Jairo Gianoto e [o secretário de Fazenda, Luiz Antonio] Paolicchi. Em valores atualizados para 2020, giraria em torno de R$ 1 bilhão.

Livro Orfeu & Violeta. Amazon. Luiz Fernando Cardoso. Café com Jornalista

Que mensagem o sr. deixa para seus amigos e familiares que tanto torceram pela sua recuperação?
Minha experiência com a covid-19 quase me levou à morte. Não podemos achar que esse vírus causa apenas uma simples gripe, ele é letal, mata e a prova está estampada nos jornais. São mais de 50 mil mortes no Brasil mais de 1 milhão de pessoas infectadas. Proteja-se, pois você pode se contaminar e levar este vírus para dentro de sua casa e contaminar pessoas do grupo de risco. Siga as orientações de higiene.




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