sexta-feira, 15 de maio de 2020

Artigo: Suicídio, e daí?

15/05/2020_

"A humanidade não deu certo", Flávio Migliaccio (26/08/1934 – 04/05/2020), em trecho da carta deixada pelo ator em seu sítio no Estado do Rio de Janeiro.
 
Por Rubem Almeida Mariano* – A crise sanitária que passamos da covid-19 é tão virulenta e desafiadora, destruindo vidas e economias mundo afora, que talvez muitas pessoas não tenham sabido desta notícia: "Aos 85 anos, morre o ator Flavio Migliaccio de suicídio". Entre as pessoas que ficaram sabendo, imagino que elas possam ter feito este tipo de indagação: "E daí? Todo dia morre gente de todo o tipo e pelas mais diferentes causas: fetos, bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. E daí? E daí?"

Flávio Migliaccio
O talentoso ator Flávio Migliaccio partiu em em 4 de maio de 2020
Filosoficamente, esse questionamento acima, do meu ponto de vista, é típico do pensamento cético negativista moderno. Sim. Para essa forma de pensar, nada tem sentido ou um sistema adequado ou nem há existência. Pois ela, caso exista, é apenas e tão somente um momento ou instante fugaz, um hiato, um nada.

Assim, para dialogar com quem pensa de forma cética negativista, pode-se usar a própria metodologia do pensamento cético, ou seja, expressar um outro ponto de vista. Afinal, assim como ele tem o dele outras pessoas possam ter o seu. Pode ser que, ao colocar o meu ponto de vista, ele também considere como uma possibilidade válida de pensar e assim reflita. Vamos lá!

No mundo, a cada 40 segundos uma pessoa se suicida. Nesse sentido, os números se amontoam. Tendo como referência o ano de 2016, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada 100 mil pessoas 10,5 morrem de suicídio. Especificamente, as taxas variaram amplamente entre os países: de cinco mortes por suicídio por 100 mil a mais de 30. 

Enquanto 79% dos suicídios ocorreram em países de baixa e média renda, os países de alta renda apresentaram a maior taxa: 11,5 por 100 mil. Morrem mais homens, quase três vezes mais do que mulheres em países de alta renda, em contraste com os países de baixa renda, onde a taxa é mais igual. Entre jovens 15 a 29 anos, que tem aumentado consideravelmente, o suicídio foi a segunda ou terceira principal causa de mortes atrás apenas de acidentes de trânsito, no caso dos meninos; e após condições maternas, no caso das meninas. Veja outras informações e dados com mais detalhe no site da Organização Pan-americana de Saúde (Opas) no Brasil.

Numa perspectiva terapêutica, acredito que um dos pontos cruciais é falar sobre suicídio. Contudo, esse assunto é cercado de preconceitos e tabus. Assim esses preconceitos, ideias prontas e acabadas sobre o assunto continuam se estabelecendo, e não resolvem o problema minimamente. Portanto, compreensão, no sentido de entendimento e de profundo respeito a nossa humanidade, é o mínimo que se pode esperar de uma sociedade que se intitula responsável pela vida humana. 

Nessa perspectiva, em um livro de fôlego, "História do Suicídio: A sociedade ocidental diante da morte voluntária", o ator Georges Minois afirma: "É em 1600 que Shakespeare formula, em Hamlet, com uma simplicidade terrível, a pergunta fundamental: 'Ser ou não ser? Eis a questão'. Por que, em uma determinada época, alguns homens escolheram não mais ser? Cada um tinha suas razões, e é importante compreendê-las, pois essa atitude revela os valores fundamentais da sociedade. Ela afeta ao mesmo tempo o indivíduo e o grupo".
 
Posto isso, retomo com profundo respeito e sentimento, a frase não somente do ator Flávio Migliaccio, mas da personagem que marcou a minha infância, como Xerife, no seriado "Shazan, Xerife e Cia", em que contracenava com Paulo José, o Shazan, ele disse na carta que deixou: "A humanidade não deu certo". Se pudéssemos ouvir os pensamentos das pessoas do nosso país, o que não é possível, eles poderiam estar dizendo: "Que dó, que pena, que tristeza, que fim muito triste para quem alegrou e levou esperança a milhões de pessoas".

Tais pensamentos se apresentam como uma assinatura como de uma sentença final, não somente de um ator, mas de um homem, de uma existência vivida de 85 anos entre nós seres humanos. É verdadeira, certamente, a possibilidade que ele tivesse os seus erros ou ter cometido exageros em sua vida; contudo, quando se olha para a biografia desse homem, permita-me o tom imaginativo e até certo ponto fantasioso, que toma este texto: "O Xerife, como sempre, mandou bem”. Absurdo! Loucura! Insanidade! Será? Deixe-me explicar. 

Sabe por que o Xerife mandou bem? Porque ele, assim como tantos outros homens e mulheres que tiveram a sua morte envolvida por um ato, que nos estupefata e até silencia, mas que sua história de vida revela verdadeiramente uma estirpe de ser humano que não suportando viver num mundo em que a vida humana não seja respeitada, e assim ele também pode ter o direito, como qualquer um de nós, não vê o menor sentido em uma determinada coisa; ele escolher não ver sentido, portanto, na humanidade.

Quem sabe, ele carregasse o DNA de um outro tipo de humano, que não o do Homo sapiens, que foi vencido por esta nossa espécie, que dia-a-dia se mostra através de suas ações e atitudes autodestrutivas e lesivas a si mesmo e ao meio em que vive, como diz o historiador israelita Harari em seu livro: "Sapiens – uma Breve História da Humanidade".

A humanidade não deu certo! E daí? As cruzadas da Igreja Católica, dos espanhóis, portugueses e europeus, de 1500 a 1900, que promoveram o maior genocídio da história nas américas, com a morte de mais de 70 milhões índios e negros, e daí? As duas guerras mundiais mataram inocentes, e daí? A bomba atômica que explodiu nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando populações inteiras, e daí? O nazismo de Hitler, que dizimou mais de 6 milhões de judeus em nome de uma raça pura que mudaria o mundo, e daí? As chacinas de 111 presos no maior presídio do Brasil, e daí? A morte de 21 pessoas inocentes em Vigário Geral, no Rio, e daí? A morte de quatro funcionários do Ministério do Trabalho, por causa de uma multa de R$ 2 mil reais, em Minas Gerais, e daí? O assassinato de 30 pessoas entre elas crianças e mulheres inocentes, na Baixada Fluminense, no Rio, e daí? A morte de 15 favelados em Guaíra, no Paraná; os corpos foram encontrados às margens do Rio Paraná, e daí? E daí?

Tantos outros atos e ações, até legitimadas e sustentadas por razões de extrema necessidade de preservação da vida, de um grupo ou da maioria contra uma minoria. Como diria Maquiavel, em o príncipe: "A guerra só tem sentido ou finalidade quando a paz é o seu fim último", assim, pode-se entender por que o celebre conselheiro do rei indicava no seu pensamento a seguinte frase que entraria para a história: "Os fins justificam os meios".
  
Por fim, será que o Xerife está se referindo a essa humanidade assassina e genocida? Que pode se mostrar regida também por atitudes nobres, refinadas e requintadas pelo ódio, que se alastra, ao longo dos tempos: esse ódio típico do DNA do Homo sapiens, em que um humano mata o outro humano por razões, que se justificam, em nome do que ele próprio entenda que deva fazer.

É Xerife, tendo a concordar com você: esse tipo de humanidade realmente não deu certo. Você tem razão! Assim, fica a questão fundamental sempre atual de Shakespeare: Ser ou não ser? Eis a questão.
Siga em paz Xerife, Flávio Migliaccio! Valeu pelos finais de tardes, em Manaus (AM), muitas vezes na companhia do meu irmão, quando chegávamos da escola primária e assistíamos ao seriado "As aventuras de Shazan e Xerife". Elas me fizeram bem sabia: aprendi daquelas aventuras a respeitar e ser solidário com a vida e com outros humanos. Valeu!

    

Rubem Mariano
* Teólogo, filósofo e psicólogo (CRP - 08/14994) e mestre em Ciências da Religião, Mariano é autor dos livros "Alcoolismo e Pastoral" (Editora Voz) e "Aconselhamento Cristão" (Editora Unicesumar). Atualmente, cursa doutorado em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Contato: (44) 98837-6156 (whatsapp business).

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