segunda-feira, 27 de abril de 2020

Entrevista – Ana Lúcia: "É arriscado afrouxar as medidas de prevenção contra a covid-19"

27/04/2020

O isolamento social teve papel importante para frear o avanço do novo coronavírus (covid-19) em Maringá, mas o afrouxamento das medidas preventivas adotadas na quarentena, neste momento, representa um grande risco não só aos maringaenses, mas também aos moradores das cidades vizinhas, que dependem da infraestrutura de saúde da cidade polo. Essa é a opinião da coordenadora do Observatório das Metrópoles, Ana Lúcia Rodrigues.

Professora e pesquisadora da UEM Ana Lúcia Rodrigues – Foto: Antonio Ozaí
Ligado à Universidade Estadual de Maringá (UEM), o Observatório foi o autor do primeiro estudo sobre a contaminação pela covid-19 na cidade. Publicada em primeira mão pelo Café, em 10 de abril, a pesquisa coordenada por Ana Lúcia comprovou que o isolamento social achatou o pico de contágio pela doença. Se nada tivesse sido feito, Maringá teria tido 82 mil infectados em um único dia.

☕ Acusações de Moro podem realizar profecia do haitiano para Bolsonaro
☕ Conheça sete sites para verificar se a informação é fato ou fake

Baseada naquele primeiro estudo e também na realidade de outras cidades, Estados e países, Ana Lúcia avalia que a reabertura das atividades econômicas foi precipitada. Maringá, segundo ela, não cumpriu os seis critérios propostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) antes da suspensão do isolamento social (veja na entrevista quais são esses critérios).

Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e pós-doutora em Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), Ana Lúcia também fala, nesta entrevista, sobre a desigualdade social na região metropolitana de Maringá, um problema que pode se agravar com a pandemia. Outro assunto abordado foram os problemas gerados pela ampliação do perímetro urbano, mesmo havendo áreas não construídas, mais próximas do centro.

☕ Ex-presidentes comentam saída de Moro; FHC pede renúncia de Bolsonaro
☕ Relembre os decretos e liminares que reduziram o isolamento social

Figura ativa na política local, a cientista social também fala das eleições de 2016, quando concorreu como vice na chapa encabeçada pelo ex-vereador Humberto Henrique (PT); da sua mudança do PCdoB para o PDT e de um eventual processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Saiba por que a professora da UEM é contra a proposta de unificar as eleições municipais e gerais, em 2020, prorrogando os atuais mandatos de prefeitos e vereadores por dois anos.

***

Café com Jornalista – Em 10 de abril, o Café publicou um estudo do Observatório das Metrópoles, o qual revelou que o isolamento social funcionou. Mantida a quarentena, o pico na curva de contágio pela covid-19 ocorreria em 17 de maio, com 15.284 casos confirmados num único dia. Como esse afrouxamento no isolamento, o pico poderá ocorrer antes? 
Ana Lúcia Rodrigues – Não temos essa resposta para Maringá, pois o modelo que usamos não leva em consideração o afrouxamento do isolamento. Mas quero destacar, sobre as notícias nacionais de sábado (25), que os dados comprovaram a aceleração da curva do número de mortes no Brasil. Foram 25 dias para chegar a mil mortes; mais sete dias para atingir 2.000; outros seis dias para chegar em 3.000; e apenas dois dias, desde o último marco, para ultrapassar 4.000. Todos os indicadores e as notícias internacionais estão demonstrando que não precisamos pagar para ver, e o mais correto seria não afrouxar as medidas de prevenção.


Como foi feito o estudo do Observatório? 
Foi utilizado o número de casos confirmados de covid-19 por dia no município, entre 18 de março, data da primeira confirmação, até 8 de abril. O modelo matemático utilizado na análise foi o SIR (Suscetíveis, Infectados e Recuperados), que é uma dinâmica de comportamento epidemiológico determinística. Esse modelo toma em conta cinco parâmetros: quantidade inicial de pessoas suscetíveis, infectadas e imunes, taxa de propagação ao dia, e taxa de recuperação ao dia. Algumas suposições foram necessárias para a utilização desse modelo, entre elas, a de que a população é fechada, isto é, o tamanho da população não muda ao longo do tempo de estudo. Também supomos que, uma vez que um indivíduo infectado é recuperado, ele não ficará doente novamente. Como o modelo levou em conta o número de casos confirmados em Maringá nos 22 dias iniciais da epidemia, seria necessário realizar uma atualização dos resultados para que novos cenários fossem construídos.

Em uma reunião na Associação Comercial e Empresarial de Maringá (Acim), foi apresentado um outro estudo ligado à UEM. Há divergências entre as duas pesquisas? 
Não sabemos dizer, pois não tivemos acesso às analises e metodologia de outra ou outras pesquisa. Por exemplo, temos conhecimento de uma publicação num site sobre a covid-19 em Maringá, mas observamos que não há possibilidade de comparação, pois as informações disponíveis constam somente da descrição dos dados atuais de Maringá.

Quanto aos levantamentos sobre o novo coronavírus, não seria possível um trabalho conjunto entre o Observatório e o outro grupo de pesquisadores?
Sim, sem dúvida. O Observatório, no seu trabalho cotidiano, já faz isso. Nosso Núcleo de Pesquisa é composto por professores pesquisadores das áreas de: Estatística; Arquitetura e Urbanismo; Engenharia Urbana; Geografia; Sociologia; História; Psicologia; Direito; Administração; Economia; Enfermagem; dentre outras. Mas, como se este trata de um trabalho exclusivamente matemático, e há um grupo na UEM que foi constituído com profissionais dessas áreas específicas, entendemos que podemos contribuir em momentos pontuais. Por exemplo, fomos chamados a trabalhar com atualização das Estimativas Populacionais, para identificar os espaços de concentração da população idosa em Maringá. Fizemos tal contribuição, estendendo, inclusive, essa atualização para os demais municípios que possuem um nível de alta integração com a cidade polo, um trabalho que está em andamento.

Na sexta (17), o número oficial de óbitos pela covid-19 no Brasil chegou a 3.503, mas se manteve em cinco mortes em Maringá. Dá para dizer que a situação está sobre controle ou afrouxamento no isolamento social na cidade, neste momento, ainda é arriscado?
Acreditamos que o afrouxamento das medidas de isolamento social, em Maringá e no país, é muito arriscado, pois foram exatamente as medidas de isolamento social que estancaram os contágios e a ampliação da curva de contaminação, mantendo cinco mortes. O ideal seria o afrouxamento associado ao aumento no número de testes aplicados na população, para que, então, os infectados assintomáticos possam ser isolados e monitorados. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçou, em 13 de abril, que são seis os critérios que países devem analisar antes de suspender o isolamento como forma de combate à covid-19. 

Quais são os critérios?
1) A transmissão da covid-19 deve estar controlada; 2) O sistema de saúde deve ser capaz de detectar, testar, isolar e tratar todos os casos, além de traçar todos os contatos; 3) Os riscos de surtos devem estar minimizados em condições especiais, como instalações de saúde e casas de repouso; 4) Medidas preventivas devem ser adotadas em locais de trabalho, escolas e outros lugares aonde seja essencial as pessoas irem; 5) Os riscos de importação devem ser administrados e; 6) As comunidades devem estar completamente educadas, engajadas e empoderadas para se ajustarem à nova norma.


O poder econômico faz valer sua vontade na reabertura do comércio?
Sim e não. Apesar de algumas bravatas, como foi o caso de uma carreata em um momento de isolamento intenso, acredito que o poder público manteve, até onde conseguiu, ações para assegurar o isolamento social no município que, certamente, promoveram a redução da mortalidade. Mas, as forças econômicas buscaram a via judicial e conseguiram, aos poucos, decisões que foram tornando injustificado o fechamento de muitos segmentos somente porque não haviam apelado ao Judiciário. O poder econômico em Maringá é articulado em torno de algumas entidades. Assim, esses representantes conseguiram, desde o princípio, fazer parte das mesas de decisão com a Prefeitura. Em Maringá, é histórica a subordinação de algumas gestões aos interesses empresariais, todavia, nesse momento isso é inadmissível, pois se a aliança com o poder econômico trouxe historicamente lucros aos empreendedores, isso foi absorvido socialmente, mas o que está em jogo hoje é mais do que isso, é a vida das pessoas. E cabe ao poder público mantê-la, pois o mercado não foi eleito, o prefeito foi. 

Se a reabertura ainda é precipitada, qual seria o momento ideal? O estudo do Observatório traz resposta para essa pergunta?
É precipitada, pois a experiência do mundo todo mostra que a única forma segura de evitar as tragédias da covid-19 é o isolamento social. Assim, a reabertura pode engrossar a curva de contaminação e alcançar um nível de demanda hospitalar maior que a oferta de leitos. O momento ideal, certamente, seria o mais prolongado possível, mas nossa análise não trabalhou com essa perspectiva. Nossa preocupação foi fazer um estudo estatístico para evidenciar exatamente isto, a diferença estatisticamente demonstrada entre fazer e não o isolamento social, num momento em que essa análise não havia sido feita ou, se fôra, não tinha sido divulgada.

Qual deve ser o papel da UEM neste momento de pandemia?
Acredito que [a UEM] já está cumprindo um papel importante, com a ampliação dos serviços do Hospital Universitário; do Lepac [Laboratório de Ensino e Pesquisa e Análises Clínicas]; com seus profissionais na linha de frente; com as contribuições de pesquisadores das mais diferentes áreas; com trabalhos e dados já divulgados; com o atendimento ao edital do Governo do Estado, colocando um grande número de alunos e profissionais a serviço das ações de prevenção em toda região – ações que significam exatamente a importância que tem a educação e a ciência, a saúde, a assistência social etc. Quem iria cumprir esse papel se os atuais governos neoliberais tivessem conseguido acabar com os serviços públicos, como vêm tentando?


Qual sua opinião sobre a adoção na UEM de atividades remotas, on-line, como alternativa para não travar o calendário acadêmico deste ano?
Neste momento, realizar atividades remotas ou não presenciais nas plataformas/ferramentas pedagógicas digitais livres é uma ação que contribui muito na manutenção do isolamento social. Estudantes e suas comunidades precisam de uma resposta positiva e propositiva da UEM, no sentido oportunizar atividades pedagógicas, curriculares e não curriculares para não sejam prejudicados. Não sabemos quanto tempo ficaremos em isolamento social. O momento é de excepcionalidade e, nesse sentido, a UEM tem um compromisso com a formação profissional, social e humana desses estudantes. As atividades remotas ou não presenciais nos permitirão estar próximos a eles, para mantermos o máximo possível o ritmo dos cursos de graduação. As atividades devem ser planejadas e realizadas de acordo com as especificidades de cada curso, procurando atender o máximo de alunos possível. Aos que não têm acesso à internet, a universidade deve procurar formas de oportunizar o acesso a atividades por outros meios.

O Observatório das Metrópoles está sempre atento a questões sociais. Já há algum estudo sobre o aumento ou não da desigualdade social em decorrência da pandemia? Os pobres correm o risco de ficar ainda mais pobres?
As análises estão começando, e é tudo muito incerto, pois estamos todos em meio a um fenômeno sem clareza, ainda, de todas as suas dimensões, implicações e consequências. Mas já dá pra adiantar que os impactos serão maiores nas áreas de maior pobreza, isso já aparece em artigos dos Núcleos do Observatório das Metrópoles de Natal, Porto Alegre e Brasília, que alertam para as dificuldades de adotar medidas de prevenção nas áreas sem a infraestrutura básica e de menores rendas. Mais à frente, poderemos confrontar os dados que estão surgindo agora com os indicadores de desigualdade social. Antes do coronavírus, os pobres no Brasil já tinham perdido muito com as reformas trabalhista e previdenciária, o que precarizou sobremaneira as relações trabalhistas e as condições de trabalho, hoje praticamente sub-humanas.

Essa questão é apenas da União e dos Estados ou há alguma coisa que o município possa fazer para amenizar essa questão da desigualdade na pandemia?
Tem várias ações cuja execução está no âmbito do município, mas, que uma grande maioria deles não têm arrecadação própria suficiente e dependem de recursos do Estado, incluindo aí governos federal e estadual. Infelizmente, o governo federal está totalmente descomprometido e desarticulado, frente ao desmonte que vem promovendo das políticas que poderiam dar sustentação a essa excepcionalidade. Sequer instalou um comitê para gerir a crise que pudesse conduzir as ações. Não é possível, numa situação extrema, mesmo contando com a solidariedade de todos, um município dar conta dos efeitos que podem resultar de uma pandemia, ainda não dimensionada na sua totalidade.

O Observatório das Metrópoles de Maringá faz parte de uma rede nacional composta por outros observatórios. Há projetos conjuntos em curso em planejamento para essa crise humanitária causada pelo coronavírus?
Como é de costume, os núcleos atenderam a um chamamento e as produções foram surgindo a partir das leituras da nova conjuntura, alinhadas às pesquisas já em andamento. E uma das questões que primeiro surgiu foi, justamente, analisar como os municípios organizam o enfrentamento de um problema que extrapola seus limites, mas, ao mesmo tempo, em se tratando de regiões metropolitanas, não existe um ente administrativo metropolitano que faça a gestão da região. Outra linha de atuação é em relação às populações mais vulneráveis presentes nos espaços urbanos que, geralmente, ficam à margem de qualquer discussão. Estamos fazendo interferências diretamente junto ao poder público, e isso está acontecendo em todas as regiões onde o Observatório atua. Alguns trabalhos já estão publicados, e podem ser acessados na internet (veja aqui).


Maringá segue expandindo seu perímetro urbano, com bairros cada vez mais afastados, apesar dos vazios urbanos existentes. Isso é ruim para a cidade?
A ampliação do perímetro e manutenção de vazios urbanos é muito ruim para a cidade. Atende, exclusivamente, aos loteadores, incorporadores imobiliários e proprietários de áreas rurais, que enriquecem do dia para a noite, quando o prefeito ou o vereador amigo faz uma ampliação assim, e ele [proprietário] vê sua propriedade deixar de ter um valor em alqueires e passar a ser contabilizada em metros quadrados. Uma beleza para a especulação imobiliária, mas uma tragédia para o conjunto da população. Assim, ocorre a periferização da moradia, e o sonho da casa própria muitas vezes vira pesadelo, pois as pessoas vão morar longe das infraestruturas urbanas, dos serviços, da rede de comércio, dos equipamentos de saúde, de educação e de assistência. Ou seja, moram aonde a cidade ainda não chegou. Quando chegar, talvez a primeira geração já tenha morrido, e os filhos começarão a ser pressionados para vender ou, muitas vezes, serão removidos forçadamente das áreas que passaram a ter qualidade urbana, como assistimos em Maringá, com a remoção do Conjunto Santa Felicidade. A expansão das cidades no Brasil seguiu esse perverso modelo de ampliar o perímetro urbano para o meio da roça, antes de ocupar os espaços urbanos vazios, mas desde 1988, a Constituição Federal proíbe essa prática: a função social da propriedade e da cidade devem ser asseguradas e cumpridas.

Como o Observatório avalia a discrepância existente entre os indicadores sociais de Maringá na comparação com as cidades conurbadas, Sarandi e Paiçandu? Que fatores levaram a essa grande desigualdade? 
Esse é o tema de minha tese de doutorado, e para ir diretamente ao ponto darei somente dois exemplos: 1) Em relação à educação, na área central de Maringá, 33% da população residente têm curso superior, enquanto num dos bairros de Sarandi são apenas 0,5% e; 2) Em relação à renda também. Tanto Paiçandu como Sarandi concentram as populações com os menores rendimentos, mas quase 50 mil moradores desses dois municípios vêm todos os dias trabalhar em Maringá. A explicação para isso nós encontramos no perverso modelo de desenvolvimento e crescimento da cidade polo, que privilegiou a paisagem planejada para a cidade dos negócios, por meio de um marketing urbano que, desde a colonização inicial, visa a atrair moradores solváveis [com recursos] para consumir, investir e garantir a valorização imobiliária e o lucro.

O que pode ser feito para reduzir essa desigualdade?
A redução das desigualdades passa, primeiro, pela implantação de políticas que ampliem as possibilidades da população acessar os direitos a uma educação de qualidade, desde a infância até o ensino superior; à moradia digna; ao transporte gratuito; a políticas de renda universal; e outros benefícios de desconcentração de renda. É isso. Pode parecer um chavão, mas essa é a situação dessas populações aqui ao nosso lado que, na sua maioria, trabalham em Maringá e não se beneficiam dos resultados do que produzem.


É possível dizer que as políticas de habitação de interesse social deixam a desejar em Maringá? Há números sobre o deficit habitacional na cidade?
Penso que sim, mas é preciso fazer duas considerações. Primeiro, reconhecer que a atual gestão municipal, nesse momento em que o governo federal zerou os financiamentos, acabando com o "Minha Casa Minha Vida", lançou por meio da Diretoria de Habitação um modelo inovador de cooperação com a iniciativa privada que permitirá, em médio prazo, atender boa parte da demanda, cujo deficit habitacional consta de 4.450 cadastros ativos da casa própria. Mas, registre-se, há 35.240 cadastros inativos, ou seja, que não foram atualizados.

E quando havia recursos federais disponíveis...
Durante 12 anos das gestões anteriores, quando o governo federal disponibilizou o maior volume de recursos para habitação social da história desse país, Maringá se recusou a implantar aqui a quantidade de moradias que poderia ter zerado o deficit, tudo isso feito para manter o planejamento maringaense, que segrega a pobreza e não permite que trabalhadores de baixa renda possam aqui construir suas vidas e sua família. Podem apenas vir, produzir riquezas e ir embora ao fim do dia, pois, como o título de minha tese de doutorado registrou, em Maringá “A pobreza mora ao lado”.

A sra. está perto de se aposentar da UEM, mas não de pendurar as chuteiras, como se diz no jargão futebolístico. Há o interesse de levar as pautas do Observatório para a política partidária?
Estou na UEM há 32 anos, desde o primeiro dia em regime de Tempo Integral e Dedicação Exclusiva, no qual tive a oportunidade de desenvolver a atividade docente em sala de aula, que sempre foi muito gratificante para mim; e a carreira de professora pesquisadora, nos últimos 15 anos atuando no Observatório das Metrópoles, que tem como característica e prática devolver à sociedade os resultados de suas pesquisas e, sempre que pode, de forma aplicada a alguma realidade. A Rede Observatório das Metrópoles participa, há muitos anos, de pesquisas em colaboração com as várias fundações de partidos, órgãos governamentais, prefeituras municipais, associações e, do mesmo modo, assessora movimentos populares, participa de avaliação de políticas governamentais, mantém representação em conselhos etc. Então, na verdade, nossas pautas já estão em debate, subsidiando programas de vários partidos. O que eu posso fazer agora é ajudar a executar e implementar essas políticas que defendo durante uma vida inteira como pesquisadora.

Por que a escolha pelo PDT? A sra. confirma sua candidatura a vereadora?
No ato de minha filiação, compartilhei com meus amigos e amigas o compromisso de continuar na luta pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária, e o PDT, pela sua tradição na defesa da implementação dos direitos assegurados nos marcos legais e dos valores democráticos, é um espaço que me permite isso. Dessa forma, coloquei meu nome como pré-candidata a vereadora.

Seu antigo partido, o PCdoB, coligou com o PT nas eleições de 2016, lançando seu nome como vice de Humberto Henrique na chapa. A coligação foi a escolha certa do partido naquele momento?
Não posso deixar de dizer que a decisão não me agradou, pois estava preparada, juntamente com um grupo de pessoas muito comprometidas, com um projeto de cidade mais humana, que pudesse ampliar os espaços de decisão, que incluísse as pessoas de baixa renda nos direitos e benefícios que Maringá oferece somente a uma parcela da população. Mas, na minha vida, sempre acato decisões coletivas. Ter ido para uma campanha junto com o Humberto Henrique [candidato a prefeito de Maringá, em 2016], que foi um dos melhores vereadores que a cidade já teve, sendo um grande defensor das causas populares, só me deu ganho com o aprendizado, com a seriedade com que formulamos e apresentamos a Maringá uma verdadeira proposta de mudança.


Há quem defenda o adiamento das eleições municipais, por conta da pandemia. Alguns parlamentares cogitam uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para prorrogar o pleito para 2022, unificando as eleições municipais e gerais. Qual sua opinião a respeito?
Não concordo com a unificação. Veja bem, as eleições municipais são a oportunidade mais clara e objetiva que um cidadão tem de participar dos destinos da cidade. Ela aproxima as pessoas e os futuros gestores da realidade concreta, dos problemas e das soluções, mesmo que tenhamos outras formas de participação via conselhos municipais, conferências, audiências públicas etc. A unificação traria um grande prejuízo ao debate com profundidade das questões locais, que são graves e imensas, pois o debate geral tomaria todo o tempo de exposição dos partidos e candidatos; além de afastar o eleitor do exercício de ir às urnas de dois em dois anos, o que acredito ser uma das formas de consolidar a democracia, sempre tão atacada e ameaçada.

Na política, um dos assuntos do momento é a possibilidade de afastamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). As acusações feitas pelo ex-ministro Sergio Moro geraram novos pedidos de impeachment, e já seriam 25 ao todo, segundo apurou a Folha de S.Paulo. Como a sra. avalia uma possível troca de Bolsonaro pelo vice Hamilton Mourão?
Sem ilusões. O presidente e seu vice foram eleitos com uma agenda de compromissos com o desmonte do Estado e das políticas públicas, mas penso que é possível explorar as contradições, que são próprias do momento de desgaste político do presidente. No pedido de impeachment apresentado pelo PDT está explícito nas considerações que "o desprezo às normas constitucionais encontra-se enraizado no modus operandi do presidente Jair Bolsonaro", e que ele fere de morte os direitos e garantias fundamentais albergados pela Constituição Federal de 1988. Então, caso venha a ocorrer seu afastamento, isso se dará a partir de uma ampla articulação dos partidos e da sociedade, impondo ao vice um novo pacto de compromisso constitucional. Volto a frisar, sem ilusões, mas isso garantiria um menor estrago até as eleições de 2022, até porque o vice não tem o amparo da conquista do voto popular.

A pandemia pode ter reflexos diretos nas eleições municipais deste ano (caso elas ocorram)?
Sim, será inevitável. Tive a oportunidade de publicar um artigo falando um pouco sobre isso e, inclusive, conclamando as lideranças políticas da cidade a se juntarem nesse momento em defesa da vida, pois isso é o mais importante nesse contexto da pandemia. Agora, o debate no período eleitoral deverá ocorrer com bastante intensidade e, aí sim, será o momento de avaliar as medidas de enfrentamento adotadas na cidade, de discutir o orçamento para os próximos quatro anos, com a provável queda na arrecadação de impostos. Então, na minha avaliação, haverá um reflexo direto e devemos considerar que esse tema terá centralidade na agenda eleitoral, abrindo o debate sobre a saúde, sobre a economia, sobre a educação, pois, de fato, a pandemia está mexendo no modo de vida e no comportamento das pessoas. Quem sabe poderemos pautar o debate por uma cidade mais democrática, onde os gestores possam valorizar mais a efetivação de políticas públicas para redução das desigualdades sociais.


>>> Sobre o Café
>>> Sobre o Jornalista
>>> Cafeinado
>>> Maringá
>>> Política
>>> Economia
>>> Geral
>>> Entrevistas
>>> Artigos
>>> Imprensa

* Matérias e opiniões publicadas no Café com Jornalista estão compreendidas pela atividade jornalística e amparadas pela liberdade de imprensa e de expressão. (Do editor)



A página do Café no Facebook superou a marca de 3.000 curtidas na Sexta-feira Santa, em 10 de abril, graças aos leitores assíduos que apoiam o blog. Para ser informado sobre novas matérias publicadas, curta você também e convide seus amigos para curtir. Clique aqui.



Para receber as últimas notícias do Café com Jornalista no seu WhatsApp é muito fácil. Basta enviar para o número acima a mensagem "Quero Café", informando seu nome e sua cidade de origem. Seu número será, então, adicionado a uma lista de transmissão dos seguidores do blog. A qualquer momento, você poderá cancelar a inscrição.
Merece:

0 comentário(s):

Postar um comentário