quinta-feira, 2 de abril de 2020

Entrevista – Alceni Guerra: "As favelas podem ter a maior tragédia de saúde pública no mundo"

02/04/2020

Luiz Fernando Cardoso, Especial para a Gazeta do Povo – Ex-ministro da Saúde no governo Collor, entre 1990 e 1992, o médico pediatra Alceni Guerra (DEM) tem defendido, em suas redes sociais, que as autoridades brasileiras adotem medidas ainda mais duras de prevenção ao novo coronavírus (covid-19). Isso incluiria o uso das forças de segurança para fazer cumprir os decretos que determinam o isolamento social, como já tem ocorrido em vários países.

Ex-ministro da Saúde Alceni Guerra – Foto: Arquivo/Câmara dos Deputados
Ex-ministro da Saúde Alceni Guerra – Foto: Arquivo/Câmara dos Deputados
O ex-prefeito de Pato Branco (PR) cita como exemplo as medidas adotadas tardiamente na Itália, um dos países mais afetados pela pandemia, com quase 14 mil mortes pela covid-19. "A demora das quarentenas e dos isolamentos [na Itália] fez com que os contágios se multiplicassem muito rápido, gerando uma curva acentuada de novos infectados, sobrecarregando o sistema de saúde", explica.

Guerra elogia o trabalho realizado até então pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta; diz que o "isolamento vertical" defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é um erro; e defende que o governador Ratinho Júnior (PSD) coloque em funcionamento hospitais que se encontram fechados, provendo-os com leitos de UTI e respiradores. "É necessário, mesmo que depois não sejam utilizados", comenta.

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O médico pediatra alerta que a covid-19 é muito mais perigosa que a gripe H1N1 (da pandemia de 2009). Segundo ele, a situação é tão grave que, se amplas medidas de prevenção não forem adotadas imediatamente, "as favelas do Rio podem ter a maior tragédia de saúde pública no mundo".

Como uma vacina contra a covid-19 ainda está sendo desenvolvida, Guerra diz que a melhor opção é o isolamento social. Sobre os impactos financeiros, que já estão impondo severas dificuldades a empresas e trabalhadores informais, o ex-ministro da Saúde diz que é preciso ter coragem de "tornar submisso o Tesouro Nacional para salvar as empresas e os empregos".

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A entrevista foi publicada primeiramente na Gazeta do Povo, em 30 de março (leia). Os dados sobre mortes pela doença foram atualizados nesta publicação no Café com Jornalista, a qual conta com perguntas extras.

***

Gazeta do Povo – O sr. tem postado nas redes sociais alertas sobre o tamanho do problema que o Brasil enfrentará com o avanço do novo coronavírus. Dá para esperar algo ainda pior do que foi a pandemia da gripe suína (H1N1), em 2009?
Alceni Guerra – Sim, infelizmente a covid-19 será muito pior.


O sr. citou que "temos de imitar os asiáticos" e não os italianos no combate à covid-19. Quais foram os acertos do Oriente nos quais devemos nos pautar?
Na China, a coragem de colocar em quarentena rigorosa milhões de pessoas. Nos demais países bem sucedidos, a decisão de acompanhar eletronicamente todos os suspeitos de infecção pelo vírus, testar todos e isolá-los de imediato, quando positivos.

A Itália tem registrado, há dias, mais 700 mortes a cada 24 horas. Quais foram os principais erros das autoridades italianas?
A demora das quarentenas e dos isolamentos fez com que os contágios se multiplicassem muito rapidamente, gerando uma curva acentuada de novos infectados, sobrecarregando o sistema de saúde.

O que as nossas autoridades brasileiras têm feito ou deixado de fazer para evitar que um pico tão alarmante da doença ocorra no Brasil?
Com exceção da ridícula cena das máscaras do presidente [Jair Bolsonaro] e dos ministros no dia 18 de março, colados uns nos outros, e sem saber utilizá-las, o Ministério da Saúde tem feito o que é recomendado pela Organização Mundial de Saúde.

O sr. aponta que o isolamento, evitando-se ao máximo as aglomerações, é a melhor medida a ser adotada. Num caso de pandemia, o sr. defende o uso das forças de segurança para fazer com que as pessoas fiquem em casa?
É o que a China fez. A Itália está fazendo com atraso, e a Espanha também. Foi a multa no motorista que fez do Brasil o campeão mundial de uso do cinto de segurança.


Além do cancelamento das aulas, algumas prefeituras decretaram, há duas semanas, o fechamento do comércio para evitar a rápida proliferação da doença, mantendo apenas os serviços essenciais. Esse tipo de medida lhe agrada?
Não agrada a ninguém, mas é absolutamente necessária.

Com sua larga experiência em gestão pública, o sr. sabe que o fechamento do comércio pode ser uma sentença de falência para pequenos negócios, sobretudo para aqueles que pagam aluguel. Que sugestões o sr. dá aos governantes para lidar com esse agravante? 
É absolutamente necessário socorrer os empresários, com coragem e ousadia, e socorrer também os trabalhadores dispensados [obrigados a ficar em casa], todos estamos no perigo de uma epidemia de “destrabalho”.

Nas calamidades, os mais pobres são sempre os mais afetados. Como Estados falidos, como o Rio, vão conseguir lidar com o coronavírus nas favelas, por exemplo?
Me preocupa a situação do Rio de Janeiro, onde 2 milhões de favelados precisam de cuidados preventivos adicionais. Lá, é preciso estocar mais testes, para isolar de imediato todos os contaminados, senão, a transmissão será a jamais vista em nenhum lugar do mundo. O vírus se transmite por gotículas dos espirros, da tosse, pela urina, pelas fezes, pelo tato. Em uma favela vivem de três a dez pessoas em cada cubículo, a higiene é mínima pela falta constante de água. A transmissão pode ser uma hecatombe, é necessário prevenir já. Estocar já, escolher já os leitos adicionais em hotéis, quartéis e ginásios, contratar já os profissionais necessários. As favelas podem ter a maior tragédia de saúde pública no mundo.

Que medidas emergenciais os governantes podem tomar em prol da população mais carente?
Não pode oferecer remédios e vacinas porque não existem, mas deve se preocupar com a alimentação, com o isolamento correto, com a segurança, com a orientação psicológica a todos, com a esperança que tudo voltará ao normal para suas famílias.

O sr. já foi ministro da Saúde. Qual sua avaliação sobre o trabalho realizado pelo ministro Luiz Henrique Mandetta nesta crise sanitária? Ele tem conduzido bem a questão?
Muito bom seu trabalho até agora. Cumpre bem as recomendações internacionais de epidemiologia.

E o que o sr. pensa da postura do presidente da República no tocante ao novo coronavírus?
[Bolsonaro] Errou feio no começo, devia ter dado o exemplo de isolamento. Depois, também errou com o isolamento vertical, contrariando o ministro. Estou torcendo para que ele dê milhares de bons exemplos. Precisamos dele [presidente], inclusive para dar confiança ao povo. O estresse é o maior amigo do vírus.


No plenário da Assembleia Legislativa, o deputado Dr. Bastista (PMN), que é médico, alertou para a gravidade da situação, pedindo ao governador Ratinho Júnior (PSD) que coloque em funcionamento os hospitais que se encontram fechados, abrindo o quanto antes leitos de UTI com respiradores. Mesmo com medidas de quarentena, isso é necessário?
Sim, é necessário, mesmo que depois não sejam utilizados. É assim a vida na saúde pública, a prevenção é o melhor remédio.

O vírus tem menos casos confirmados no Paraná do que nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. As medidas tomadas pelo nosso governo têm ocorrido na velocidade que o combate ao novo coronavírus exige?  
Não podemos nos comparar com o Rio e São Paulo, pela população e pela logística da circulação do vírus, mas podemos superá-los em prevenção e assistência. A prevenção foi boa, vamos torcer que a assistência seja ótima.

Mandetta previu que "vamos passar de 60 a 90 dias de muito estresse". Qual é sua previsão para o coronavírus no Brasil?
A mesma do Mandetta.

Mais conhecida da população, a gripe não costuma se dar bem no verão. No caso da covid-19, o calor que tem feito pode representar alguma vantagem no combate à doença?
Ainda não é possível dizer que sim, apenas torcer que isso realmente aconteça.


Há alguma razão lógica para o povo estocar comida, álcool em gel, máscaras e medicamentos?
Razão lógica, não. O mercado sempre se portou bem no Brasil. Mas o medo é uma emoção normal, inclusive em pessoas normais. Acho que passará assim que se verificar essa capacidade do mercado.

Dá para esperar por uma vacina no curto prazo?
Não, não dá, infelizmente. Os testes em humanos apenas começaram, e devem levar alguns meses, no mínimo.

Falando como médico e político, que mensagem o sr. deixa para os paranaenses? 
É preciso seguir rigorosamente as normas internacionais de saúde pública e, depois, ter a coragem de tornar submisso o Tesouro Nacional para salvar as empresas e os empregos.

O que o sr. tem feito atualmente. Exerce a medicina ainda? Tem pretensões políticas?
Não tenho mais qualquer pretensão política. Estou ajudando alguns países da África a implantar sistemas de saúde que ajudei a implantar no Brasil, como ministro. Mas o coronavírus me obrigou a esperar um pouco. Espero que seja breve.



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