domingo, 12 de abril de 2020

Artigo: Pós-verdade, fake news e Páscoa

12/04/2020

Por Rubem Almeida Mariano

Quando o apóstolo Paulo disse à comunidade de Corinto: "Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma do pão e beba do cálice." (I Cor. 11:28); ou, posteriormente, na Reforma Protestante, no século XVI, quando Martinho Lutero pregava sobre o Livre Exame das Escrituras pelas pessoas leigas, ambos não imaginariam que, séculos depois, com a radicalização da valorização do indivíduo, o ser humano se tornaria a chave de interpretação social, principalmente, no Ocidente.

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Nessa direção, a máxima: “o homem é a medida de todas as coisas” do filósofo pré-socrático Protágoras tem ganhado força, tem se constituído uma realidade, principalmente com a criação do mundo da internet, na década de 60, e, mais recentemente, a criação das redes sociais, como Facebook, WhatsApp, dentre outras.

Sobre a pós-verdade. Você sabe o que é?  Esse tema é tratado de forma ficcional no livro "1984", de George Orwell – com primeira edição publicada em inglês, em 1949. O livro trata de uma sociedade governada por um Estado supremo (o grande irmão), onisciente, onipresente e onipotente. Esse governo consegue oprimir aqueles que divergem de suas ordens e penetra em suas mentes, controlando-os através de informações falsas que são divulgadas pelo seu Ministério da Verdade: a mentira passa pela verdade e a verdade pela mentira com o único intuito de governar. Assim, o grande irmão (big brother) controla a vida de todos e de todas. Vale a pena conferir!

O ambiente sociocultural da pós-verdade pode ser mais bem compreendido e identificado com as chamadas fake news. Elas revelam de forma tácita no tipo de humanidade, que se encontra em mutação. Sobre isso, o que a mim me parece é que há o aprofundamento dos "valores" liberais e do sistema capitalista.

Nesta matéria, em especial, não credito no mero acaso ou na falta de controle. Compreendo que há interesses de uma determinada ordem político-econômica, que pode ser explicitada na figura emblemática do egoísmo individualista; ou seja, como ser social que se caracteriza com os seus próprios intentos, propósitos e desejos. Um tipo único de utilitarismo individualista do sistema capitalismo. Numa expressão bem chula: "Que o outro se exploda, eu só quero o meu!"       

Portanto, assim como um vírus, a exemplo do novo coronavírus, a notícia falsa toma conta do corpo social. Elas têm um imenso poder viral. Espalham-se muito rápido. As pessoas tomadas pelo apelo emocional das informações falsas fazem com que esse tipo de material "noticioso" – sem verificar ou confirmar se o conteúdo das mesmas é de fato verdadeiro – passe adiante como sendo uma verdade absoluta ou como uma verdade para quem quer que assim o seja.

E a Páscoa? Temos registros historiográficos "intra" e "extra" bíblicos sobre a Páscoa. Para os judeus: a libertação da escravidão do Egito à Terra Prometida de Canaã, com os chamados os filhos de Israel, na antiguidade; e para os primeiros cristãos: a morte para a vida, na ressurreição de Jesus Cristo, o filho de Deus, em Jerusalém, há mais de 2.000 anos. 

Agora, caro leitor, neste novo ambiente sociocultural da pós-verdade, fica a seguinte pergunta: o que pode conferir status de "verdade" a um determinado evento histórico? Duas questões se colocam: De um lado, a interpretação a partir das fontes historiográficas; Do outro lado, a interpretação a partir de notícias curtidas e compartilhadas nas redes sociais, como WhatsApp ou Facebook. 

Assim, que tipo de narrativa prevalece sobre a mensagem da Páscoa: a da tradição ou das redes sociais? Nesse novo ambiente, o que nos parece é que a narrativa das redes sociais com as suas notícias, vídeos, memes, áudios, imagens... têm ganhado status de "verdade". 

Desta forma, além dos ovos de chocolate que alegram não somente os chocólatras, mas o comércio como um todo, a Páscoa cristã e a sua mensagem tradicional podem, ainda, ser alvo dos mais diversos intentos, nesse novo ambiente da pós-verdade das fake news. Estratégias típicas para apresentar novas ideias e conquistar mais seguidores nas redes sociais. 

Nessa direção, por fim, imagine comigo, neste tempo de pós-verdade, nas redes sociais, anúncios ou mensagens de valores inestimáveis para as mais diversas religiões do mundo como sendo uma fake news? "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo" (Mt. 22:37-39). Já imaginou?    

Rubem Mariano
* Teólogo, filósofo e psicólogo (CRP - 08/14994) e mestre em Ciências da Religião, Mariano é autor dos livros "Alcoolismo e Pastoral" (Editora Voz) e "Aconselhamento Cristão" (Editora Unicesumar). Atualmente, cursa doutorado em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Contato: (44) 98837-6156 (whatsapp business).



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