domingo, 15 de março de 2020

Entrevista – Ulisses Maia: "Será necessário criar outros modais de transporte coletivo"

15/03/2020

Principal obra entregue pela gestão do prefeito Ulisses Maia (PDT), o Terminal Intermodal Dr. Said Ferreira, inaugurado em 28 de fevereiro, pôs em pauta discussões sobre a mobilidade urbana em Maringá. Como fazer para baratear a tarifa do transporte público? A cidade vai ter um veículo leve sobre trilhos (VLT)? O Trem Pé Vermelho é viável? E uma linha de metrô? O BRT das avenidas Morangueira e Kakogawa será replicado em outras avenidas?

Ulisses Maia, prefeito de Maringá – Foto: Vivan Silva/Arquivo/PMM
Ulisses Maia, prefeito de Maringá – Foto: Vivan Silva/Arquivo/PMM
Em entrevista ao Café com Jornalista, focada no tema mobilidade urbana, Ulisses falou sobre essas e outras questões recorrentes, como a interligação das ciclovias, as obras no Contorno Sul, a revitalização da Avenida Brasil e a regulamentação do uso de bicicletas e patinetes compartilhados – assunto em discussão na Câmara Municipal.

A inauguração do Terminal Intermodal de Maringá e sua 'paternidade'

O Café também questionou sobre promessas feitas por Ulisses, entre elas a de instalar abrigos em todos os pontos de ônibus que seguem identificados por tocos de madeira ou metal, situação que pode ser considerada uma vergonha para uma cidade do porte de Maringá. O prefeito se esquivou apenas de perguntas referentes às eleições deste ano, respondendo que esse não é o momento de tocar no assunto.

Ulisses Maia diz que permanece no PDT, mas isso ainda não é o 'dia do fico'

No início da entrevista, o leitor perceberá que Ulisses prefere se referir ao novo terminal como "terminal urbano e não intermodal", apesar de praticamente todos os textos publicados no site da Prefeitura, sobre o assunto, utilizarem a palavra "intermodal" – também empregada no totem em homenagem ao ex-prefeito Said Ferreira.   

Totem traz a denominação "Terminal Intermodal" – Foto: Aldemir de Moraes / PMM
Totem traz a denominação "Terminal Intermodal" – Foto: Aldemir de Moraes/PMM
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Café com Jornalista – Considerada principal obra de seu mandato, o Terminal Intermodal ainda não está 100% pronto. Como estão os ajustes finais? Qual é a previsão para inauguração da praça de alimentação?
Ulisses Maia – Temos nos referido ao local como terminal urbano e não intermodal, porque, neste momento, é isso que ele é, ainda que o projeto original indique seu uso para outros modais, como o trem. Inclusive, a estrutura está parcialmente concluída no subsolo. Entendemos que o terminal está concluído e operando em seu aspecto mais importante: proporcionar ao usuário do transporte coletivo um local mais seguro e confortável para embarque e desembarque. A parte superior do terminal, o mezanino, está em fase de licitação e esperamos que, ainda neste semestre, esteja ocupada e em operação.

Apesar da imponência da obra, linhas metropolitanas do terminal acabaram de fora da área coberta, em pontos regulares de ônibus, o que gerou críticas por parte de usuários. O projeto para essas linhas pode ter sido mal elaborado?
As linhas metropolitanas estão bem acomodadas no entorno, com pontos contíguos ao terminal. Apenas os ônibus não entram no terminal, suficiente apenas para atender as linhas urbanas. O projeto foi elaborado em 2014 e executado conforme o planejado.

O próprio nome da obra sugere um intermodal, contemplando acesso à estação central de um trem de passageiros. Dá para crer que o projeto do Trem Pé Vermelho – entre Maringá e Londrina – vá sair do papel algum dia?
Não há dúvida que, futuramente, será necessário criar outros modais de transporte coletivo além de ônibus. A cidade sempre se planejou, olhando décadas à frente, e isso é importante para atender demandas que obviamente vão surgir. Sobre o trem, os estudos são conflitantes em relação à sua viabilidade econômica.

O túnel do trem e a estação do terminal não seriam mais úteis para uma futura linha de metrô, com estações no aeroporto e na rodoviária, ligando Paiçandu e Sarandi ao centro de Maringá? Essa possibilidade já foi aventada?
Metro é opção cara no sentido de investimento. Mas, repito que o futuro ainda vai criar demandas. É importante deixar na mesa de discussão todas as possibilidades, considerando a posição da cidade enquanto referência regional, especialmente para as cidades mais imediatamente próximas. Conectá-las com modais de transporte mais rápidos, maiores, confortáveis e preços acessíveis será uma necessidade futura, sem dúvida.

O que parece ser mais plausível, a médio prazo, é o veículo leve sobre trilhos (VLT). Um estudo feito pela sua equipe já apontou a viabilidade de uma linha leste-oeste, instalada na Avenida Brasil e passando pelo terminal. Quais são as maiores dificuldades para tornar realidade esse moderno modal?
Trata-se de um a intervenção custosa sob o aspecto de investimento e com impacto urbano enorme. Resiste exatamente no custo elevado o principal obstáculo.


Além de mais sustentável, o VLT costuma valorizar a região onde é instalado. Isso ocorreu com no Rio de Janeiro. Por aqui, o VLT não ajudaria a revitalizar a Avenida Brasil, que hoje se apresenta com vários pontos comerciais fechados?
Uma intervenção dessa proporção, sem dúvida, provocaria enormes transformações não apenas na avenida, mas em todo o entorno. Especificamente sobre a Brasil, já revitalizamos a praça 7 de Setembro, iniciamos as reformas das praças Rocha Pombo e Emiliano Perneta [Igreja São José] e vamos revitalizar também a praça Napoleão Moreira da Silva [da Pernambucanas]. Também já projetamos a instalação de iluminação em LED ao longo de toda a avenida, como já estamos fazendo em outras vias. Então, estamos trabalhando para melhorar a avenida. O mais importante de tudo isso: depois de amplas discussões com comerciantes, com apoio da Acim [Associação Comercial e Empresarial de Maringá], estamos preparando um concurso público para escolher um projeto de revitalização muito inovador para a avenida.

Se o Sr. tiver a felicidade de ser reeleito, o VLT de Maringá – que seria o primeiro do Sul do Brasil – seria candidato a uma das principais obras de mobilidade urbana um eventual segundo mandato?
Neste momento, nossa prioridade é atender as demandas do cidadão, proporcionando a ele mais qualidade de vida com investimentos em obras e serviços. No momento certo vamos falar de eleição.

Entre o VLT e a transformação do Anel Viário Sincler Sambatti em uma ampla avenida, qual deles seria prioridade? Qual é mais difícil de ser implantado?
O Contorno Sul está em fase de obras, com revitalização de toda sua extensão. Nunca foi feita uma intervenção tão extensão e profunda na obra. Mas reconhecemos que isso resolverá o problema da via por um tempo, pois o contorno foi construído sem a necessária previsão do crescimento urbano do entorno e do imenso fluxo de veículos e caminhões. Temos projeto para transformar a via. É igualmente um projeto caro, mas necessário e importante. Mobilidade sempre é prioridade. No momento certo vamos considerar o que é mais importante para as pessoas e tomar a decisão.

Outra inauguração realizada no seu mandato foi a do BRT das avenidas Morangueira e Kakogawa. Qual é a avaliação que seu governo faz das faixas exclusivas de ônibus? Há a intenção de replicar aquele modelo em alguma outra avenida da cidade?
Foram necessários muitos ajustes no projeto para que as faixas exclusivas funcionassem. Ainda faremos as adaptações necessárias, até porque, com a entrada em operação do terminal, conclui-se esse processo. O transporte coletivo é desafiador e é preciso estar atento não apenas à velocidade e conforto do usuário, mas essencialmente ao custo. Estamos com um estudo de mobilidade em andamento e o resultado dele vai nos apontar as necessidades de investimentos e as intervenções necessárias.

As ciclovias já são uma realidade em Maringá, mas as lideranças das associações de ciclistas dizem que ainda há muito a ser feito, como a interligação entre ciclovias e ciclofaixas existentes. Quais são seus projetos para esse modal?
Sempre há muito o que fazer e vamos continuar a investir para proporcionar uma malha cada vez mais extensa e segura e, principalmente, conectada.

Enquanto temos ciclovias avaliadas entre as mais belas do Brasil, como é o caso daquela da Avenida Cerro Azul, há pistas degradadas, como as ciclovias das avenidas Brasil, Pedro Taques e Mandacaru. Há planos de recuperação dessas ciclovias?
Sim. Vamos recuperar todas as ciclovias.


Para nossa cidade, uma malha cicloviária considerada ideal precisaria ter quantos quilômetros? Hoje, qual é a quilometragem? Temos esse número na Semob?
Temos cerca de 45 km. Difícil dizer o que seria ideal, pois é necessário antes perguntar o que é possível, considerando algumas limitações do espaço urbano apto para implantação da ciclovia. De qualquer forma, vamos proporcionar essa opção de mobilidade em todas as vias possíveis e conectando-as, o que é mais importante.

A Câmara Municipal aprovou, recentemente, em primeira discussão, projeto de lei que prevê a regulamentação da bicicletas e patinetes compartilhados em Maringá. O que o Sr. achou da proposta?
Trata-se de demanda moderna, nova no debate sobre mobilidade. Tudo que é novo, causa algum impacto, mas é assim que se avança. Importante disciplinar uso, mas sem burocratizar, priorizando sempre a segurança.

Em fevereiro, Luxemburgo se tornou o primeiro país do mundo a aprovar o transporte público gratuito. Obviamente, nada é de graça. Em Maringá, existe a possibilidade de subsidiar o transporte coletivo para tornar a passagem mais atrativa?
O tema é delicado e não dá para ser conclusivo. Sabemos que é preciso buscar alguma solução para manter o custo da passagem num patamar que não onere o usuário. Em nosso governo, temos cobrado melhorias na qualidade do transporte de forma muito insistente, não permitido nenhuma atualização de tarifa fora do estritamente legal.

Alternativas como a reversão da arrecadação do Estar para redução da tarifa do transporte público são consideradas pelo seu governo?
Não. Não temos nada conclusivo quanto a isso.

Apesar do imponente Terminal Intermodal e de outras obras de mobilidade urbana, Maringá ainda tem inúmeros pontos de ônibus identificados apenas por tocos de madeira. Sua promessa era instalar pontos de ônibus cobertos no lugar de todos esses tocos. Dá tempo de fazer?
Estamos implantando pontos de ônibus cobertos por toda a cidade. Estamos trabalhando para isso.

Maringá ganhou, nos últimos meses, os chamados Mega BRTs. Esses veículos maiores, mais modernos e confortáveis foram apenas um experimento ou está projetada a substituição gradual dos ônibus do modelo antigo por esses novos?
O importante não é só a capacidade de transporte, mas a qualidade. Portanto, não importa o ônibus usado: devem ser confortáveis e seguros. Fiscalizamos linhas, remanejamos horários, exigimos mais veículos em horários de pico. Enfim, o usuário não pode ser penalizado por incompetência da empresa ou falta de investimento.

Para encerrar, o Eixo Monumental passará por ampla revitalização. O martelo já está batido quanto à escolha do projeto ou há margem para ajustes? A Avenida Getúlio Vargas poderia ser fechada para pedestres?
Os projetos já estão finalizados, e vamos iniciar a licitação dos trechos. Trata-se de uma grande intervenção da Catedral à Vila Olímpica que vai impactar muito no centro da cidade, proporcionando mais segurança e lazer para o cidadão. O projeto prevê um calçadão na Getúlio Vargas, com muito verde e espaços de lazer.




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