domingo, 8 de março de 2020

Entrevista – Tania Tait: "O machismo do presidente encoraja outros homens a agredir mulheres"

08/03/2020

Instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1975, o Dia Internacional da Mulher não tem motivos – não num país tão violento e desrespeitoso com elas – para comemoração. A data é de reflexão e de luta por respeito, igualdade de gênero e contra o feminicídio. Esse é o entendimento de lideranças femininas, entre elas a coordenadora da ONG Maria do Ingá – Direitos da Mulher, Tania Tait.

Tania Tait, coordenadora da ONG Maria do Ingá e professora aposentada da UEM – Foto: Arquivo/CMM 
Professora doutora aposentada da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Tania ressalta que o Brasil se tornou o quinto país do mundo em mortes de violentas de mulheres. Com o aumento dos registros de feminicídio, essa triste realidade também é notada em Maringá, com casos graves ocorridos recentemente, como o assassinato da bailarina Maria Glória Poltronieri Borges, a Magó.

Segundo Tania, o governo atual, machista e conservador, contribuiu para o agravamento de uma situação que já era ruim. A luta, mais necessária do que nunca, inclui investimentos em campanhas de esclarecimento, diz a professora, levando o debate sobre a violência contra as mulheres para dentro das salas de aula.

☕ Artigo: Grito de dor no Dia Internacional da Mulher

Prova objetiva de que ainda há muito a avançar nas causas feministas é a composição atual da Câmara Municipal de Maringá. Apesar de as mulheres serem a maioria entre os eleitores, não há representatividade política numa Casa de Leis com 15 cadeiras, todas ocupadas por homens. Num dia de reflexão, vale muito a pena ler a entrevista completa, até a última questão, reler se necessário, e compartilhar.

☕ Ato neste Dia da Mulher pede basta ao feminicídio

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Café com Jornalista – Comemora-se neste 8 de março o Dia Internacional da Mulher. Primeiramente, vamos à questão histórica. Há mais de uma versão sobre a criação dessa data para lembrar as lutas das mulheres. Qual versão lhe agrada mais?
Tania Tait – A primeira versão e mais difundida é sobre a greve das trabalhadoras da indústria têxtil em Nova York, na qual, no mês de março em 1911, 146 mulheres foram mortas porque, durante a greve das trabalhadoras, o dono da fábrica mandou fechar as portas pra que elas não saíssem. Ou seja, as mulheres foram assassinadas por estarem reivindicando melhores condições de trabalho. Apenas em 1975, a ONU [Organização das Nações Unidas] proclamou o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. Essa é uma versão importante pra mim, pois dá o tom de luta pelos direitos das mulheres, com direito a uma vida digna, sem violência e com igualdade.

Neste domingo, uma passeata no entorno do Parque do Ingá, teve entre suas bandeiras o não ao feminicídio. Qual a importância de eventos como esse e da adesão da sociedade a eles?
O ato "Basta de Feminicídio", organizado pelo Fórum Maringaense de  Mulheres, é a expressão das mulheres que não aguentam mais ser assassinadas nem ver mulheres sendo assassinadas. Eventos desse porte são importantes, pois envolvem diversos setores e entidades da sociedade com o objetivo maior de dar um basta ao feminicídio. A adesão da sociedade é fundamental para que políticas públicas e medidas na legislação sejam tomadas para que o assassino não fique impune diante do crime que cometeu. Não podemos mais nos calar. O Brasil teve um aumento de 7% nos casos de feminicídio e se cristaliza como o quinto país do mundo em violência contra a mulher, ou seja, o Brasil não é um local seguro para as mulheres.


Diante do aumento dos casos de feminicídio no país, dá para afirmar que a atual conjuntura política contribui, de alguma forma, para essa triste realidade?
Na minha visão, a atual conjuntura política contribui e muito. Temos um presidente e um congresso com maioria conservadora que traz as chamadas “pautas morais”, que colocam a mulher em estado de subordinação. O próprio presidente [da República, Jair Bolsonaro], em suas falas, desqualifica as mulheres. Basta ver a postura machista dele com relação às jornalistas e deputadas. Ao mesmo tempo, o governo federal corta verbas para o combate à violência contra a mulher. Ou seja, fala para seus eleitores conservadores o que eles querem ouvir e, também, corta  as verbas que poderiam beneficiar as mulheres em situação de violência, tanto com prevenção como com assistência.

O Brasil está mais machista com Bolsonaro na presidência?
Se você tem um presidente que tem esse tipo de postura, os homens machistas se sentem à vontade para agredir as mulheres, como se o comportamento do presidente fosse um incentivo e levasse à impunidade. Um detalhe que não pode passar desapercebido é o incentivo ao armamento pelo governo. Já foi comprovado por especialistas que as mulheres são as maiores vítimas quando se tem arma em casa, visto que, em qualquer discussão, são ameaçadas ou assassinadas.

Tivemos casos recentes em Maringá, graves, de violência contra a mulher. O que deve ser feito para isso não se repita? Quais políticas públicas precisam ser implementadas?
Temos dois pilares no combate à violência contra a mulher: o poder público e a sociedade. O poder público é formado pela justiça, pelos legisladores e pelos servidores policiais, da saúde e da assistência. Se um desses componentes do poder público falhar, a violência acontece. Na atualidade, o corte de verbas no combate à violência feito pelo poder público irá reduzir as campanhas de esclarecimento, o fortalecimento dos centros de atendimento e as políticas de combate à violência contra a mulher.

Fale mais sobre essas "campanhas de esclarecimento"...
O pilar sociedade tem a ver com a conscientização. A campanha “Não é não”, protagonizada pelos movimentos sociais, é um grande exemplo, pois busca conscientizar os homens ao respeito pela decisão das mulheres. Falácias criadas como a inexistente ideologia de gênero propagada pelas igrejas e conservadores mobilizou a sociedade, que acreditou que há pessoas que querem mudar o sexo das crianças. Absurdos como a invenção do  kit gay e da tal mamadeira de piroca, com uma propaganda absurda e mentirosa – as famosas fake news –, sem comprovação de qualquer espécie, não contribuem, de forma alguma, para o fim da violência. Pelo contrário, o conservadorismo joga pra debaixo do tapete situações de violência contra as crianças, as mulheres e LGBTs como se elas não existissem. Ultimamente, temos ouvido muitos casos de violência, estupro de crianças cometidos por pessoas do convívio da criança. Tem algo muito errado nessa história e, ao invés de corrigir, as pessoas parecem preferir fazer de conta que o problema não existe. Muitas crianças e adolescentes se sentem mais seguros para contar a situação que estão vivendo quando se fala sobre o assunto em aulas de educação sexual nas escolas, onde é possível, também, discutir assédio sexual, violência, entre tantos temas que fazem parte do cotidiano.

Dia da Mulher não é só de flores, mas de reflexão nas lutas por respeito e igualdade de gênero. As mulheres maringaenses, em sua maioria, já têm essa compreensão?
Alguns indícios mostram que as maringaenses ainda precisam conhecer mais a realidade das lutas e das discussões por igualdade de gênero. Alguns movimentos em Maringá tiveram grande expressão como o ato "#Ele Não", antes das eleições de 2018; e com o "Ato por Magó, por nenhuma a menos". No primeiro caso, as mulheres foram às ruas contra os retrocessos e o machismo do candidato que se tornou presidente, mas Maringá deu 75% dos votos para ele. No segundo caso, houve uma grande comoção por ser uma mulher conhecida e com grande ciclo de amizades, atuante na área de dança e esportes. Outros atos mais gerais, como a "Pedalada pelo fim da violência contra a mulher", não têm o mesmo apelo social e adesão por parte das mulheres, pois têm uma pauta geral que mobiliza poucos setores.

Hoje, quais seriam as principais lutas das mulheres. Dá para elencar?
Podemos considerar como lutas: A presença da mulher na política proporcional à sua representatividade na sociedade brasileira; O fim da violência contra a mulher; A igualdade salarial entre mulheres e homens no exercício da mesma função; Os direitos reprodutivos; A saúde integral da mulher; O respeito às especificidades das mulheres negras, LGBTs, indígenas, deficientes, profissionais do sexo, entre outras. Ações de empoderamento das mulheres e sororidade [união de mulheres que compartilham os mesmos ideais] têm sido pauta dos movimentos.

A Sra. é coordenadora da ONG Maria do Ingá. Que tipo de ações são realizadas pela ONG ao longo do ano e quem pode participar?
A ONG Maria do Ingá tem 15 anos de existência. O objetivo é formar e informar na área de direitos das mulheres. Atuamos para o empoderamento e fortalecimento dos direitos das mulheres. Além de informar sobre os direitos, a história das mulheres, a Lei Maria da Penha, entre outros temas, atuamos para que as mulheres se fortaleçam e sejam protagonistas de suas histórias de vida. Realizamos palestras, cursos e oficinas em empresas, escolas, igrejas, unidades de saúde, entre outros locais, em Maringá e no Estado do Paraná. A ONG possui, atualmente, 20 integrantes: advogadas, psicóloga, assistentes sociais, secretárias, empresária, professoras e aposentadas. O trabalho é todo voluntário. Recentemente, obtivemos o título de utilidade pública municipal da Prefeitura de Maringá. Para participar, basta nos procurar. Realizamos uma apresentação da ONG e, caso a pessoa confirme o interesse, começa a participar conosco colocando suas habilidades como trabalho voluntário para a defesa dos direitos da mulher. Estamos no Facebook e temos um blog [veja aqui].

Uma das maneiras de avançar nas lutas é aumentar a representatividade das mulheres na vida pública. A ONG encoraja as maringaenses a entrar para a política?
Sim, ao atuarmos para que as mulheres sejam protagonistas da própria história, incentivamos as mulheres a trabalhar no que desejarem. Temos também uma discussão importante sobre mulher e política, e procuramos estar atentas aos movimentos políticos da cidade com relação à atuação das mulheres e das políticas públicas para mulheres. Maringá tem mais de 200 mil eleitores e nenhuma vereadora. Nunca teve prefeita ou vice-prefeita. As mulheres precisam compreender que a política faz parte das nossas vidas e que qualquer ação, como o corte de verba no combate à violência contra a mulher, é uma atitude política. Qualquer postura pode afetar nossas vidas a partir do momento que se torna uma lei ou uma política pública.


São 15 cadeiras na Câmara Municipal e, como a Sra. bem lembrou, são ocupadas apenas por homens. Mulher não vota em mulher?
Se pensar apenas que somos a maioria da população brasileira e que essa representatividade não existe na política, diria que sim. Mas, existem outros fatores que devem ser analisados, como o fato de saírem menos mulheres candidatas, os partidos não privilegiarem as candidatas mulheres, os partidos lançarem candidatas laranjas, as mulheres não terem apoio das famílias. Atuar na política significa, para as mulheres, o aumento da jornada de trabalho, além da forma como as mulheres que atuam na política são mal tratadas. Todos esses fatores contribuem para tornar as mulheres invisíveis na política. Muitas mulheres ainda são eleitas pelo que chamamos de herança familiar, ou seja, são parentes de políticos e reproduzem na política a política excludente que trazem com elas.

Uma velha dificuldade dos partidos políticos, nas chapas para vereadores, é completar a cota mínima de 30% das mulheres. Não dá a impressão de que muitos partidos só lembram das mulheres quando chega o período eleitoral?
Certamente, isso acontece com a maioria dos partidos, que ficam procurando mulheres para preencher as vagas. Mesmo possuindo em suas estruturas setores de mulheres, que promovem a discussão política e o estímulo para as candidaturas, falta muito para que se garanta a representatividade das mulheres. O PT [Partido dos Trabalhadores], em seu último congresso, estabeleceu que nas direções partidárias deve ter 50% de homens e 50% de mulheres, o que já indica um começo em direção à paridade.

Dia 12, você lançará no auditório da Aduem, às 19 horas, o livro "As Mulheres na Luta Política". Quais são os pontos de destaque do livro?
Destaco como pontos principais: O silêncio das mulheres na história que começa a ser desfeito; As narrativas das mulheres que atuaram no campo de luta contra a ditadura militar; E a importância da atuação das mulheres na política como protagonistas, tanto nas atividades do cotidiano como na ocupação dos cargos de direção. No caso específico das mulheres militantes nos anos 1960 e 1970, destaca-se que eram mulheres jovens que foram duplamente transgressoras, pois não aceitaram o papel imposto a elas, o de ser dona de casa, e adentraram num campo considerado masculino, que é a política. A pesquisa que gerou o livro me emocionou muito pelas narrativas das mulheres que, hoje, na terceira idade, abriram suas vidas e histórias, relembrando seu passado na juventude. Senti-me muito honrada em guardar suas histórias. Um outro ponto relevante ao se pensar nas mulheres na história é que as mulheres sempre foram relacionadas aos homens – maridos e amantes – como aquelas que os seguiam, como no caso de Anita Garibaldi ou Maria Bonita. Não eram vistas como mulheres lutadoras, mesmo lutando como os homens.

Capa do novo livro de Tania Tait, a ser lançado em 12 de março
Quem não puder ir ao lançamento, encontra o livro onde?
O livro pode ser adquirido no site da Editora CRV, na versão impressa ou em e-book, ou solicitar nas livrarias.

Para encerrar. De que forma a mídia poderia contribuir para as lutas das mulheres?
A mídia tem um papel fundamental na desconstrução do machismo. Não só divulgando as notícias, mas colocando conteúdo que não desqualifique as mulheres e valorize sua atuação. Muitas vezes, a mulher é colocada na imprensa de forma desqualificada, não profissional, como é feito com relação aos homens.


Há mulheres machistas?
Sim, vivemos numa sociedade machista e todos e todas nós somos machistas em algum momento. Trata-se de um processo de aprendizado e de desconstrução do machismo, em busca da igualdade e do respeito.

Homens podem ser feministas, sim. Explica para os leitores do Café por quê?
O feminismo se pauta pela defesa dos direitos das mulheres e pela igualdade entre mulheres e homens. Se os homens compactuam dessa defesa e se compreendem que as mulheres são donas de seus corpos e não eles, certamente, são homens feministas, que estão lado a lado com as mulheres por uma vida digna, com respeito e liberdade. Afinal, como escreveu Olympe de Gouge – feminista francesa, guilhotinada em 1791 – no  Artigo 1º da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã: “A mulher nasce livre e tem os mesmos direitos do homem. As distinções sociais só podem ser baseadas no interesse comum”.



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