domingo, 1 de março de 2020

Entrevista – Reginaldo Dias: "Número de candidatos a prefeito será ainda maior"

01/03/2020

As eleição municipal deste ano representará uma janela de oportunidades para quem deseja ingressar na vida pública. A leitura é do professor e historiador da Universidade Estadual de Maringá (UEM) Reginaldo Dias, que destaca predisposição do maringaense à renovação. Mantida a média dos últimos pleitos, apenas um terço dos vereadores conseguirá a reeleição.

A nova regra para a eleição proporcional, que exige dos partidos chapas puras, deve apimentar a disputa, elevando as incertezas. Essa nova regra, na avaliação de Dias, terá influência direta na eleição majoritária. Maringá, que costuma ter entre oito e nove candidatos a prefeito, tende a ter ainda mais prefeituráveis no pleito deste ano.

O historiador Reginaldo Dias, autor de "A Face Esquerda da Cidade" e "Da Arte de Votar e Ser Votado" – Foto: Arquivo Pessoal
A lógica é simples. Sem poder coligar para montar a chapa de vereadores, muitos partidos não abrirão mão de lançar candidato a prefeito. Um prefeiturável de renome tem potencial para puxar votos para os vereadores de sua legenda, bem como chapas consistentes de vereadores sempre foram fundamentais – salvo poucas exceções, citadas pelo historiador na entrevista – na disputa majoritária. É a chamada capilaridade. 

Autor de uma série de livros sobre Maringá, Dias comenta ainda sobre os recordes que poderão ser quebrados nas eleições deste ano, como o de vereador mais votado da história da cidade – Homero Marchese recebeu 6.573 votos em 2016 – e o de número de mandatos. Se for reeleito, Belino Bravin (PP) chegará à espantosa marca de oito mandatos consecutivos.

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Café com Jornalista – O sr. sempre comenta que bons quadros na disputa majoritária ajudam os candidatos a vereador. Com a exigência de chapas puras na proporcional, podemos ter um número recorde de prefeituráveis, com cada partido querendo ter seu próprio candidato?
Reginaldo Dias – Desde 1988, temos uma variação de oito ou nove candidatos ao cargo de prefeito. Não é pouca coisa. Com a nova legislação, haverá ampliação desse número, sem dúvida. Resta saber se os partidos escolherão candidaturas majoritárias próprias ou procurarão abrigar as chapas proporcionais em um guarda-chuva mais amplo de uma candidatura majoritária. Para alguns partidos, essa hipótese não é viável. Para outros, sim. Quando o candidato a vereador percebe que seu candidato a prefeito é fraco, ele estimula o eleitor a fazer o casamento favorável, vinculando-se informalmente com candidatos viáveis. Inversamente, chapas fracas de vereadores prejudicam candidaturas majoritárias.

Na campanha, dá para apostar só nas redes sociais ou o corpo a corpo ainda é fundamental?
Apesar da modernização das mídias e de seu inegável alcance, quando se pensa na eleição proporcional [para vereador], o contato corpo a corpo ainda é muito decisivo. Conta, inclusive, a relação pessoal. Naturalmente, as ferramentas eletrônicas devem ser utilizadas para potencializar esse contato e ampliar o alcance.

E no caso dos candidatos a prefeito?
Na eleição majoritária, a necessidade de dialogar com toda a população exige mídias ágeis e mobilizadoras, mas não dispensa o corpo a corpo do candidato e do seu exército de apoiadores. As mídias ajudam a arregimentar tropa, a compartilhar discurso e argumentos, a espalhar munição contra os adversários. Do meu ponto de vista, é preciso perceber que os fundamentos de uma campanha não se alteraram fundamentalmente. As ferramentas é que se modernizaram. 

Dias junto à estátua do escritor Ernest Hemingway
Quais são os recordes, do ponto de vista histórico, que poderão ser quebrados nas eleições municipais deste ano?
Na disputa majoritária, a eleição inédita de uma mulher ao cargo de prefeita ou vice-prefeita. Há o fator etário, eleição do mais jovem prefeito (atualmente é Ricardo Barros, com 28 anos) ou com mais idade. Há o recorde de votos em caso de vitória no primeiro (Silvio Barros, em 2008) ou no segundo turno (José Cláudio, em 2000). Há a vitória de um candidato novo no primeiro turno. Na única vez em que a disputa terminou no primeiro turno, considerando de 2000 para cá, houve a reeleição do prefeito Silvio Barros. 

E na disputa por uma cadeira na Câmara, quais os possíveis recordes?
Na disputa proporcional, Belino Bravin pode alcançar o oitavo mandato e se tornar recordista absoluto. Fator etário: eleição do mais jovem (Bia Correa, 20 anos, 1996 ainda é a recordista) ou com mais idade (Bravin, eleito aos 69 anos em 2016). Há o recorde votos, em números proporcionais ao eleitorado (Eli Diniz, em 1972) ou números totais (Homero Marchese, em 2016). Na minha avaliação, o recorde de Eli Diniz, 10% dos votos válidos, nunca será ultrapassado. De todos os cenários, dois são bem factíveis: a) Bravin pode alcançar o oitavo mandato; b) Como Hossokawa e Bravin são competitivos, um dos dois pode ser o vereador com mais idade a exercer mandato. Ambos nasceram em 1947.

Dia 5 de março inicia a janela partidária para troca de legenda sem incorrer em infidelidade. Qual será a tendência nessa janela? Podemos ter concentração de candidatos fortes de votos em quatro ou cinco siglas?
O candidato se movimenta pelo cálculo da viabilidade. Isso supõe o cálculo de seu potencial eleitoral, do potencial de vagas da legenda e da classificação que ele pode obter no limite dessas vagas. De maneira geral, há o sentimento de que não é bom negócio se vincular a legendas tradicionais, as mais alvejadas pelo desgaste político. Daí, a proliferação de novas agremiações, algumas das quais nem incorporam o termo “partido” no nome. O risco existe dos dois lados. Uma legenda fraca pode não atingir o quociente. Em contrapartida, uma legenda com candidatos fortes amplia o número de cadeiras, mas acentua a competitividade interna.

Recentemente, foi matéria aqui no Café sobre a preocupação dos vereadores com a nova regra para a eleição proporcional. Há motivos para essa preocupação?
Historicamente, a taxa de renovação da Câmara é alta. Na maior parte das vezes, situa-se em dois terços [2/3] das cadeiras. Por vezes, houve oscilação por causa de mudanças conjunturais, mas esse é o padrão histórico. Isso torna difícil a vida dos que se candidatam a um novo mandato. Se prevalecer a média, apenas cinco vereadores [de Maringá] dos 15 voltarão.

Se reeleito, Bravin chegará ao oitavo mandato consecutivo – Foto: CMM
É correta a leitura de que essa nova regra, que obriga chapas puras dos partidos na proporcional, favorece partidos mais bem estruturados na cidade, com é o caso do PT e do PP em Maringá?
A estrutura partidária conta na disputa, pois garante logística, exército para marchar e campanha em toda a cidade. Mas é preciso notar que há um desgaste político das legendas tradicionais, sobretudo do Partido dos Trabalhadores. O PT aposta nos votos fidelizados, naqueles que votariam em qualquer circunstância, mas o desgaste também interfere na composição da chapa e na obtenção de meios para fazer campanha. Não se sabe se o PT terá uma candidatura majoritária galvanizadora de seus eleitores.

Já o PP tem alguns nomes cotados para lançar como prefeito...
Não sei se há um voto ao PP em Maringá. Aqui, a sigla se confunde com a liderança dos irmãos Ricardo e Silvio Barros. Eles também sofreram desgaste, recentemente. Silvio, apesar de ter sido bem avaliado como prefeito, visto que foi reeleito e fez o sucessor, perdeu a última eleição para Ulisses Maia [PDT]. Ricardo teve, a exemplo de outros políticos tradicionais, a votação encolhida na última eleição para deputado federal. Outra variável é o investimento que efetivamente farão para a disputa do poder local, o que implica na apresentação de um candidato a prefeito competitivo.

Hoje, além desses dois partidos, quais outros teriam vantagem na formação de uma chapa forte para atingir o quociente eleitoral? O PDT, caso Ulisses permaneça na sigla, seria um exemplo?
Os manuais de  estratégia política recomendam casar a campanha de prefeito com uma forte base de candidatos a vereador, pois eles capilarizam a campanha e percorrem todo o território. Eventualmente, foram eleitos prefeitos com bancada minoritária, como Ricardo Barros (1988), José Cláudio (2000) e Ulisses Maia  (2016), mas o bom senso recomenda a busca daquela capilaridade. Isso funcionou nas duas vitórias de Silvio Barros e na campanha do Pupin, para citar exemplos recentes. Não sei avaliar qual é o investimento que o grupo do prefeito Ulisses Maia vem fazendo. Inegavelmente, o prefeito tem notável popularidade, mas a campanha exige capilaridade.

Dá pra dizer que a escolha do partido para a disputa da vereança nunca foi tão importante?
Esse dilema existe em todas as campanhas. Mario Hossokawa ficou fora da legislatura anterior porque seu partido não atingiu o quociente. A novidade desta campanha é o acentuado desgaste das legendas tradicionais e do legislativo em particular. Por isso, há uma miríade de novas legendas.

Dá para ter uma ideia (ainda que vaga) sobre a votação mínima que será necessária para o quociente eleitoral?
Em condições normais de temperatura e pressão, há um descarte (abstenção, nulos e brancos) de 20% dos votos para o cálculo do quociente. Não vivemos condições normais de temperatura e pressão.

Há quem afirme que não há candidatos bons de votos sobrando para todos os partidos. Isso vai exigir um "garimpo" maior por parte das siglas?
Essa prospecção já começou. Vem sendo feita desde o ano passado. O marco regulatório costuma ser um ano antes das eleições, quando viceja o que o escritor Jorge Ferreira Duque Estrada chamava de tempo de conjuminação. Há novas legendas estruturadas com chapas montadas de candidatos a vereador. A campanha deste ano será uma enorme janela de oportunidades para quem quer exercer mandato público. Vivemos um momento de renovação acentuada da liderança política municipal.  Podemos falar disso em outra ocasião.



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