domingo, 22 de março de 2020

Entrevista – Maringaense na Itália: "Não há lugar para todos nos hospitais"

22/03/2020

Mascalucia é uma pequena cidade, com aproximadamente 30 mil habitantes, situada aos pés do vulcão Etna. Fica na ilha italiana da Sicília, onde o novo coronavírus também chegou, contaminando pessoas e preocupando seus moradores. Um deles é a maringaense Aleciane Gonçalves, 38 anos, casada com o italiano Antonio Grasso. Na quarentena com o marido e com os dois cães e os três gatos, ela conta como têm sido esses dias de medo e angústia na Itália, o país mais afetado pela Covid-19.

A maringaense Aleciane, em sua casa, com um de seus animais de estimação: "Tudo ficará bem"
No sábado, o país teve 793 mortes em apenas 24 horas, chegando a 4.825 óbitos, segundo balanço diário das autoridades. Com 3.095 mortes, a região mais atingida é a da Lombardia, onde fica a cidade de Milão, uma metrópole com 1,3 milhão de habitantes. “Não vejo mais os telejornais e não leio todas as notícias do Facebook porque estava fazendo muito mal para o meu equilíbrio psicológico”, diz, sobre a dificuldade de encarar tantas mortes.

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Há dez anos na Itália, Aleciane felizmente vive numa ilha, um pouco afastada do epicentro da doença. Na Sicília, foram registradas oito mortes por conta do novo coronavírus. Segundo a entrevistada, 48 pessoas se encontram em terapia intensiva. Na principal cidade da região, Catânia, 181 pessoas testaram positivo para a doença.

Babysitter, Aleciane também precisou parar de trabalhar. Medidas de isolamento, segundo ela, começaram a ser adotadas há cerca de um mês, com toda a Itália sendo colocada em quarentena há 12 dias. A maringaense conta que, por medo de uma quebradeira na economia, as medidas mais duras de combate à doença foram adotadas tardiamente, permitindo que o vírus avançasse de forma devastadora.

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A Itália passa por uma situação de guerra porque, no início, a epidemia (antes de ser reclassificada como pandemia, pela Organização Mundial da Saúde) foi tratada por muitos como “uma gripe mais forte”. Depois das mortes em massa, caiu a ficha: não era uma “gripezinha”. “A realidade é que não tem lugar nos hospitais para todos. Um morre e entra outro. É uma crueldade o que está acontecendo”, comentou.

Da Sicília, a maringaense clama para que seus conterrâneos respeitem as medidas restritivas adotadas pelo governo municipal. Antes de iniciarmos a entrevista, Aleciane dá algumas dicas: Não se aglomerem nos supermercados; não vai faltar comida nem papel higiênico (na Itália, depois de um mês, não faltou); prefiram fazer compras no próprio bairro, na mercearia, na vendinha, no açougue, evitando filas nos mercados maiores e diminuindo o risco de contágio; só saiam de casa se for realmente necessário.

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Café com Jornalista – A impressão é que não dava para piorar a situação na Itália, mas piorou. O número de mortes por dia continua aumentando. Como os italianos têm reagido a essas informações?
Aleciane Gonçalves – Uma tristeza infinita. Tristeza porque cada pessoa morre sozinha, sem ajuda da família e sem um enterro digno. Mas a pior coisa, que doeu na alma, foi ver os caminhões do Exército a levar os corpos para outras cidades porque não tem mais espaço na sala crematória, nos cemitérios, dentro das igrejas. Nossa única pergunta é quando tudo isso vai acabar?

Como está a situação do novo coronavírus na Sicília e na cidade onde você mora?
Até hoje [sábado] ao meio-dia, quando saiu o boletim informativo, em toda a região siciliana são 458 pessoas [contaminadas]. Dessas, 254 estão internadas, 48 em terapia intensiva, 204 em isolamento domiciliar e 26 pessoas curadas. Na minha cidade, Catânia, são 181 casos positivos para o coronavírus. Na Sicília, já são oito mortes pela doença.


Há quantos dias o país já está em quarentena? Como têm sido os seus dias no isolamento?
O isolamento começou há mais ou menos um mês no norte da Itália e, agora, faz 12 dias que toda Italia está em quarentena. A primeira semana não foi tão difícil, pois eu estava precisando de alguns dias para descansar, dormir, dedicar-me mais à minha casa e à minha família. Mas, dia após dia, vendo os telejornais, vendo o Facebook, o meu marido, que estava fora para trabalhar, vendo todos os dias centenas de pessoas morrendo, os casos aumentando na minha região, comecei a sentir um pouco de pânico, ânsia. Ao ponto que eu nem quero mais sair de casa para comprar comida. Se você sai com máscara, luvas, as pessoas te olham com desconfiança. Eu mesmo olho as pessoas com desconfiança, pois cada pessoa que você cruza pode ser um potencial portador do vírus. Isso é a pior coisa.

Como vocês têm feito quando é extremamente necessário sair de casa?
Fizemos um plano, o de sair de casa uma vez na semana para fazer compras, ir à farmácia, fazer sacolão. Meu marido e eu estamos evitando ao máximo ir ao supermercado. Preferimos comprar nos pequenos negócios da minha cidadezinha, onde pedimos para fazer a entrega em casa. Agora, não vejo mais os telejornais e não leio todas as notícias do Facebook porque estava fazendo muito mal para o meu equilíbrio psicológico. Estou ocupando o meu tempo em limpar a casa, desinfetando sempre, vendo Netflix, lendo livros, cantando. Adoro cantar e rezar. Estou seguindo a minha paróquia pelo Facebook. Duas vezes por dia, o padre faz as diretas [lives]. A oração é a melhor forma de tranquilizar o coração.


O que acontece se você sair do isolamento sem justificativa?
Na maioria dos casos, pega uma multa e, dependendo da gravidade, vai para a cadeia por três meses.

Ouvimos de algumas lideranças políticas que isso era histeria e que não passava de "mais uma gripezinha". Você, que está no país mais afetado pela doença, diz o que a respeito para os seus conterrâneos?
No começo foi assim aqui também. Alguns falavam que era uma gripe um pouco mais forte. No começo, a maior parte da população pensava que fosse um exagero todas essas medidas, inclusive eu. Mas está aí o resultado do nosso descaso. O não levar a sério as restrições impostas pelo governo resultou em mais de 42 mil casos positivos e 4.825 pessoas mortas.

Algum conhecido seu já pegou a doença? Alguém do seu círculo social já morreu em decorrência da Covid-19?
Conhecido, não, mas aqui na minha cidadezinha há alguns casos positivos.


Aqui em Maringá, bastou o prefeito anunciar o decreto de fechamento do comércio para as pessoas correrem aos mercados para fazer estoque de comida e papel higiênico. Teve algo parecido com isso aí na Itália?
Sim, tem um ditado aqui que diz: “Tutto il mondo è paese” (Todo o mundo é país, em português), que quer dizer que o mundo todo é igual. Quando o governo fechou toda a Itália, as pessoas correram para os supermercados, fizeram filas de madrugada para poder entrar e comprar quanto mais coisas podiam. Eu não fui diferente. Fiz minha grande compra no supermercado quando começou a emergência na região da Lombardia. Há mais ou menos 20 dias, já faltavam algumas coisas nos supermercados, como farinha, álcool, álcool em gel para limpar as mãos. Não me arrependo de ter feito essa grande compra, pois, desde então, não entrei mais nos supermercados. Semana passada, fui ao açougue perto de casa e comprei uma boa reserva de carne e congelei, comprei uma boa reserva de produtos de limpeza e tudo o que vai faltando procuro comprar perto de casa, assim, evitamos de sair continuamente.

Aliás, o que você achou do decreto do prefeito Ulisses Maia de fechar o comércio? Há quem diga que foi uma decisão precipitada porque Maringá só tem três casos confirmados...
Foi a decisão mais sábia que ele [Ulisses] podia ter tomado. Com dois ou três contagiados já começa a reação em cadeia. Dois viram oito, oito viram 16, 16 viram 24 e assim vai. Quando você menos espera, a situação fugiu de controle e acontece o que está acontecendo aqui [na Itália]. Tem de ficar aberto por necessidade somente os supermercados e negócios de bens alimentares e farmácias, com a devida limitação de pessoas. Aqui, no supermercado, podem entrar somente duas pessoas, dependo do tamanho do supermercado; o restante tem de esperar fora, respeitando a distância de segurança, que é de um metro e meio. Mas, eu queria que aqui na Itália fechasse tudo, porque parece que a situação não está melhorando.

Além da falta de máscaras e álcool em gel, alguns comerciantes que ainda tinham esses produtos foram flagrados praticando preços abusivos aqui em Maringá. Ocorreu isso na Itália?
Não muda nada, Luiz Fernando [Cardoso, editor do Café com Jornalista]. Muitos comerciantes foram denunciados por causa desses abusos. Praticavam preços exorbitantes, vendiam ilegalmente máscaras e gel.


Para que a gente não repita os mesmos erros. Em que os italianos mais erraram para que se chegasse a essa situação dramática?
Não seguiram, e alguma parte da população não segue até agora, o decreto do governo; porque, se seguissem, os casos não estariam aumentando, obrigando o governo a colocar o Exército nas estradas. Aqui, na minha região, começaram a aumentar os casos positivos quando o governo começou a fechar a Lombardia [região italiana mais afetada]. As pessoas que moravam lá, por estudo ou trabalho, voltaram para suas casas no sul, sem se importar se tinham ou não o vírus. Fugiram, no sentido da palavra mesmo, de trem, para estar com a família, e o vírus veio junto. Penso que foi a mesma coisa com o primeiro caso aí em Maringá, de uma mulher que voltou da Espanha dia 12 de março, se não me engano. Então, tem de seguir as regras. Vai ser difícil, mas vai ser para o bem de todos. Se for fazer compras, vai um só membro da família, usando luvas e, se possível, máscara. Quando retornar, deixar o calçado fora de casa, desinfetar as roupas, a casa, lavar sempre as mãos, evitar aglomeração, visitas de parentes, amigos, vizinhos. Tem de ficara em casa com a família, e basta.

É verdade que médicos aí da Itália chegaram a ter de escolher quem atender porque já não havia UTI e respiradores para todo mundo? Passou alguma coisa sobre isso no noticiário daí?
Fui procurar a veracidade dessa informação, porque o que tem na internet [a respeito] é contraditório. Assistindo a um telejornal, asseguraram que não era verdade. Mas, não tenho certeza. A realidade é que não tem lugar nos hospitais para todos. Um morre e entra outro. É uma crueldade o que está acontecendo.

Quais têm sido os acertos dos italianos, agora, na quarentena? Que exemplos devemos seguir?
A maioria dos italianos entenderam que tem de ficar dentro de casa, e sair somente em caso de necessidade. Aprendemos a usar luvas e máscaras, aprendemos a estar longe das outras pessoas. Estamos aprendendo a não jogar mais nada fora. Cada comida que sobra é preciosa. Não precisa ir à padaria todos os dias para comprar o pão, porque um prato de pasta [macarrão] no almoço é suficiente. Aprendemos que o pão velho pode ser reaproveitado e que, se a dispensa não ficar cheia, vamos sobreviver do mesmo jeito.

Há uma foto no seu Face em que você segura um cartaz que diz que "Tudo vai ficar bem". Aquele cão branco é seu? Aquela é sua casa?
Sim. É a frente da minha casa, e o meu cachorro se chama Marley. A propósito, tenho dois cachorros e três gatos, e eles estão nos ajudando muito a superar esta quarentena. Os animais nos dão a certeza de que tudo vai ficar bem.


Quando essa pandemia passar e as pessoas se recuperarem. A região onde você mora é uma boa opção para passar férias? O que tem de bom pra fazer e comer aí?
A Sicília é a ilha mais linda do mundo. O turismo aqui perdura o ano todo, não somente pelas paisagens, mar, montanha, história, arte, mas também pela comida. Temos o vulcão Etna, temos Taormina [cidade turística perto do Etna], somos conhecidos pela nossa cozinha, pelos queijos, vinhos, peixe, pasta, pizza, granita [sobremesa semicongelada, preparada com açúcar água e frutas] e sorvete. Quem vem aqui tem de vir preparado para ganhar alguns quilos a mais.

O que você mais gosta na Itália?
É uma pergunta muito difícil. Eu não conheço ainda toda a Itália, mas cada vez que conheço um pedacinho dela eu me apaixono cada vez mais. Descobrir a Itália é descobrir a história, é realizar o que somente vimos nos livros escolares. O livro vira realidade e a história, finalmente, pode ser tocada, vista e sentida. Outra coisa que gosto é o sorvete, não tem como resistir.

Pra fechar, deixe uma última uma mensagem a todos os seus amigos e conhecidos em Maringá...
Caros amigos e família, sei que esse vírus está trazendo muito medo, ansiosidade e confusão. Quero que vocês, desde já, sejam prudentes e não pensem que “não vai acontecer comigo ou com os meus”, porque não é bem assim. A luta que todo o mundo está vivendo é contra um inimigo invisível. Sejam duros nas decisões de vocês. Se o coronavírus for isolado em uma quantidade mínima de pessoas, podem ter certeza que a vida de todos vai voltar à normalidade rapidamente. Então, fiquem em casa! Colaborem com as decisões do prefeito, pois não é exagero. Ele [Ulisses Maia] está fazendo isso para o bem de todos, está vendo além e entendeu, perfeitamente, o que acontecerá em Maringá se medidas drásticas não forem tomadas agora. Quanto mais cedo o governo agir, mas cedo vocês vão sair dessa. Agora é a hora de vocês de estarem longe de tudo, mas, ao mesmo tempo, unidos. É a hora de aprender a ficar com a família ou a ficar sozinho. É a hora de vocês terem paciência, espírito de colaboração. É a hora de aprender a ter um contato mais íntimo com Deus, construindo a igreja dentro de suas próprias casas.


Errata: a matéria foi publicada, inicialmente, com a informação de que não haviam ocorrido mortes pela Covid-19 na Sicília. Na verdade, oito pessoas morreram pela doença segundo autoridades locais.




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