segunda-feira, 30 de março de 2020

Cafeinado: A ficha de Bolsonaro para a Covid-19 precisa cair, e isso depende do guru ou do Congresso

30/03/2020

Dois fatos, ocorridos na semana passada, criaram a expectativa de que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mudaria, finalmente, sua postura frente à pandemia, deixando de tratar o novo coronavírus como "gripezinha" ou "resfriadinho". O primeiro fato foram as reuniões previstas entre o presidente e governadores para afinar as ações contra a Covid-19. O segundo foi o recuo do presidente do Estados Unidos, Donald Trump, que passou a pedir para que os norte-americanos fiquem em casa.

Presidente Jair Bolsonaro – Foto: Agência Brasil
No primeiro caso, Bolsonaro perdeu a chance de vestir de fato a faixa presidencial, dando um calaboca nos críticos ao liderar uma ofensiva contra a Covid-19. Contudo, no fatídico pronunciamento em rede nacional, na terça-feira (24), pela retomada das aulas e pela volta ao trabalho, o presidente azedou completamente o clima com os líderes estaduais. Desde então, o discurso de Bolsonaro é ignorado pelos governadores, que se mantêm atentos às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OSM).

O segundo fato foi ainda mais importante. Quando Trump recuou no discurso contra o isolamento, muitos imaginaram que a ficha do presidente do Brasil cairia quanto à gravidade da Covid-19. Não caiu. Trump estendeu as medidas de distanciamento social até o fim de abril, desistindo de reabrir o país na Páscoa, mas Bolsonaro não seguiu o mestre, tornando a falar em "gripezinha" e desautorizando o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, como naquela saidinha do Planalto para visitar comerciantes, causando a aglomeração de pessoas.

O guru
Estávamos enganados sobre o mestre-mor de Bolsonaro. Ele vive nos EUA, mas não na Casa Branca, e sim na Virgínia. Uma ordem dele, do astrólogo e ideólogo Olavo de Carvalho, poderia realinhar Bolsonaro, colocando-o no comando das ações contra a Covid-19 – comando que hoje é exercido por Mandetta e por governadores, principalmente o de São Paulo, João Doria (PSDB). No entanto, não esperemos nada da Virgínia. Na segunda (23), o YouTube precisou deletar um vídeo no qual Olavo espalhava que o coronavírus era uma "suposta pandemia".

O Congresso 
Se não podemos contar com o controle mental exercido por Olavo sobre Bolsonaro, resta somente uma medida, mais dura: a do impeachment. Com a popularidade em baixa; com a perda de apoiadores importantes, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM); e isolado pelos governadores; Bolsonaro está enfraquecido. Talvez apenas uma sinalização de impeachment já bastasse para causar um choque de realidade em Bolsonaro, exigindo dele a postura de líder que se espera de um presidente na maior crise humanitária deste século.

Impeachment I
Como o Café já contou, há pelo menos sete pedidos de impeachment protocolados na Câmara dos Deputados, todos requerendo que Bolsonaro seja responsabilizado por crime contra a saúde pública devido às suas falas inconsequentes sobre a Covid-19. Cabe ao presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM), decidir se arquiva os pedidos ou se dá andamento a todos ou a algum deles. O que Maia vai fazer ainda é uma incógnita.

Impeachment II
Não é demais lembrar que, antes mesmo do pronunciamento em rede nacional – que encorajou carreatas de terraplanistas pela reabertura do comércio –  a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) e o jurista Miguel Reale Júnior já haviam sugerido o afastamento de Bolsonaro do cargo. No lugar do presidente, eu levaria a sério essa dupla. Por muito menos, Janaína e Reale foram coautores da peça jurídica que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Meme



Fiquem em casa
Em entrevista ao Café, o curitibano Cássio Bellio, que há 17 anos vive na região italiana do Vêneto, pede aos conterrâneos que sigam as recomendações de isolamento das autoridades de saúde. Baseado na tragédia que acomete a Itália, Bellio diz que "o maior erro foi não ter feito o isolamento no início da propagação". Leia a entrevista aqui.

Boletim
Até o início da tarde deste segunda (30), o Brasil já havia confirmado 4.371 casos da Covid-19, com 141 mortes. Minas Gerais confirmou a primeira morte. Epicentro da doença no país, o Estado de São Paulo soma 98 óbitos. No Paraná, Cascavel confirmou a primeira morte pelo novo coronavírus, elevando para três os casos fatais no Estado – as duas primeiras mortes ocorreram em Maringá.

Maringá
O prefeito Ulisses Maia (PDT), que segue as diretrizes da OMS, não reabriu o comércio, apesar da carreata e até de ameaça de morte. Lideranças da carreata, aliás, segundo o Blog do Rigon, foram chamados ao 4º Batalhão de Polícia Militar de Maringá para dar esclarecimentos. A PM atendeu a recomendações do MP.


Francisco Beltrão
Após reunião dos prefeitos da Associação dos Municípios do Sudoeste do Paraná (Amsop), o comércio de Francisco Beltrão foi reaberto às 9h desta segunda (30). Pelos relatos da imprensa local, as ruas do centro da cidade ficaram lotadas. A decisão do prefeito Cleber Fontana (PSDB) é temerária, se considerarmos que o vírus é altamente contagioso. A maior cidade da região, com 91 mil habitantes, por enquanto, ainda não tem casos confirmados da doença.

Comércio aberto
O decreto de Fontana, pela abertura do comércio com algumas restrições, vai na contramão das recomendações de médicos e epidemiologistas. Entrevistei para a Gazeta do Povo o ex-ministro da Saúde, o médico Alceni Guerra (DEM), que defende o isolamento. Segundo ele, a Covid-19 será muito pior que a pandemia da H1N1 (de 2009). Pelo que lemos sobre a Itália e a Espanha, por exemplo, já está sendo. Leia a entrevista.

Alceni Guerra em entrevista publicada pela Gazeta do Povo nesta segunda (30)
Câmara
Deve retornar à ordem do dia da Câmara Municipal, na sessão desta terça (31), projeto de lei do vereador William Gentil (PTB) que proíbe o cachimbo tipo narguilé nas praças e entorno de logradouros públicos de Maringá. Na sessão de quinta (26), Gentil pediu a retirada da pauta por uma sessão para incluir no projeto propostas da sociedade.

Subsídios I
O reajuste de 4,3% nos subsídios dos vereadores, prefeito, vice, secretários e outros cargos comissionados de Maringá segue dando o que falar. Em nota à imprensa, o presidente da Câmara, Mário Hossokawa (PP), diz que o legislativo apenas cumpriu seu papel, aprovando o reajuste conforme previsto na Constituição Federal.

Subsídios II
Segundo Hossokawa, a não aprovação do reajuste poderia resultar na rejeição das contas da Câmara e da Prefeitura pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE). "O percentual vinha sendo discutido com o sindicato desde janeiro, mas, infelizmente, a votação dos projetos coincidiu com essa pandemia de Covid-19", diz o presidente da Casa. Em nota anterior, a Câmara desmentiu fake news de que teria ocorrido aumento nos salários, explicando que o índice de 4,3% corresponde à reposição da inflação.

No YouTube
Em tristes tempos de pandemia, de fake news ganhando de goleada da imprensa tradicional na audiência, é importante dar ouvidos a quem realmente entende de vírus. Esse é o caso do biólogo e pesquisador Atila Iamarino. Recomendo que os leitores se inscrevam em seu canal no YouTube.




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