sábado, 14 de março de 2020

Artigo: Abraçar ou não abraçar Suzy: o que faria Jesus?

14/03/2020

* Por Rubem Almeida Mariano

Jesus disse aos apedrejadores de uma prostituta: "Quem não tem nenhum pecado, atire a primeira pedra"; e a um criminoso: "Ainda hoje estará comigo no paraíso". Sobre o polêmico abraço entre o médico Dráuzio Varella e uma apenada trans exibido no programa Fantástico (Rede Globo), o que faria Jesus?

Essas são passagens bíblicas muito conhecidas, devem concordar comigo, principalmente, os leitores da Bíblia.

Interpretação do momento em que Jesus salva a vida da prostituta que seria apedrejada: "Quem não tem nenhum pecado, atire a primeira pedra"
Interpretação do momento em que Jesus salva a vida da prostituta que seria apedrejada: "Quem não tem nenhum pecado, atire a primeira pedra"
Apresento essas passagens bíblicas para refletir sobre a atitude de centenas de pessoas e milhares de robôs programados para criticar, de forma veemente, o médico Dráuzio Varella pelo fato dele ter dado um abraço em uma criminosa, de nome Suzy, uma transexual. Ela se encontra presa, pagando pelos seus crimes, conforme prescreve o Código Penal Brasileiro. Após ser julgada, tendo sido culpada, foi condenada a cumprir sua pena em regime fechado, num presídio.

Quero ressaltar – pois nem sempre o óbvio é tão óbvio assim – que nós, cristãos e cristãs, que cremos na graça e no amor de Deus, simples assim, não compactuamos ou aprovamos ou, melhor ainda, repudiamos veementemente toda e qualquer ação criminosa. Não concordamos com quaisquer atos antiéticos, ilegais e ilícitos ou crimes de psico ou sociopatas, mas entendendo que, numa sociedade democrática de direitos, toda e qualquer pessoa que nascer nesta terra tem amplos direitos à defesa, segundo a nossa Constituição, a Carta Cidadã.

Contudo, é profundamente estarrecedor saber que há pessoas que se intitulam cristãs piedosas, tementes a Deus e seguidoras de Jesus Cristo, seja ela católica ou evangélica, tendo uma atitude de escarnecer publicamente seja ele quem for, crente ou ateu, pela atitude de dar um abraço numa pessoa como símbolo de solidariedade ao sofrimento daquela pessoa: refiro-me ao abraço entre um médico e uma criminosa. Sem dúvida, é muito difícil concebermos, principalmente, quando se sabe da violência do crime cometido pela apenada.

Momento do abraço de Dráuzio em Suzy, em reportagem exibida pelo programa Fantástico (Globo)
Pondere comigo: será que esquecemos ou faltamos às aulas de catequese ou de discipulado, onde “supostamente” aprendemos que o Senhor Jesus Cristo conversou, e não somente isso, mas comeu, bebeu, foi à casa de pessoas desqualificadas, guerrilheiras, prostitutas, criminosas e até corruptas – os políticos da época, eles não eram criminosos? –. Jesus foi mais ousado ainda, fez amizade com toda essa gente. Loucura!

Jesus se sentia muito à vontade para falar com as pessoas desse “naipe”, um criminoso, por exemplo, que havia sido julgado e condenado pela Justiça romana a ser executado (pena de morte de cruz), assim como Jesus foi também condenado (eu acredito que Jesus foi condenado injustamente). Ressalto, porém, que não existe um único cristão, no mundo inteiro, que não acredite que Jesus foi condenado e morto de forma injusta. Todos nós cremos assim. Mas, certamente, quem não é cristão pode até afirmar: “Se foi condenado é porque devia”. Você já pensou nisso?

Mas Jesus, diante da atitude de arrependimento daquele criminoso, que havia sido condenado pela Justiça, disse: "Ainda hoje estarás comigo no Paraíso". Como assim? Que critério Jesus usou para contrariar a Justiça romana, a qual é norma normata do Direito até aos nossos dias?

Sinceramente, acredito que aqueles que se dizem cristãos e apedrejaram o dr. Dráuzio, que é um médico, certamente nunca haviam lido ou ouvido essa história ou não conhecem as tantas histórias de Jesus e a sua proposta libertadora de uma nova vida para o ser humano. Esquecemos que a Justiça pode falhar?

Por isso, nessa perspectiva, cabe questionar: que cristianismo é esse que está sendo propagado com uma mensagem “do não amor ao próximo”, a ponto de dizer que não há absolutamente nenhuma possibilidade de saída para o ser humano, seja ele quem for, de reconstruir a sua vida e existência.

A verdade tem de ser dita: não se pode considerar que uma pessoa seja seguidora de Jesus Cristo, o salvador do mundo, e negue essa possibilidade: “Todos pecaram e carecem da Glória de Deus”, e o novo mandamento que nos foi dado pelo próprio Jesus: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo."

Seja quem for, pessoa de bem, do lar e recatada, ou um cristão de direita ou nós, cristãos de esquerda, sempre, todos nós teremos que nos arrepender e viver segundo o evangelho, se assim se quisermos ser seguidores fieis de Jesus. Há uma boa notícia aos que estão cansados, oprimidos e sobrecarregados pelos seus pecados: uma vida nova, mudança de direção, a favor da vida, no seu sentido mais amplo possível!

Por isso, quem tem ouvido ouça, o que diz Espírito à Igreja e à sociedade: "Quem não tem pecado atire a primeira pedra", e mais: "Pegue a sua cruz e siga o Senhor Jesus!". O Espírito Santo está nos dizendo: viva de fato o projeto de Jesus em seu dia-a-dia!

Por que todo aquele que nele crê (mensagem para nós cristãos), ou seja, necessariamente devem viver como Jesus viveu, aí sim, este será salvo! Porque bandido (político, militante, militar, médico, psicólogo, pastor e padre) bom, nessa perspectiva, é bandido arrependido e transformado pelo amor que vem do Senhor Jesus, em ações de testemunho vivo e de novas práticas que revelam a sua transformação a favor da vida!

Lembremos o que o apóstolo Paulo disse, no fim de sua carreira apostólica, em Gálatas: “Eu sou o maior pecador entre todos os pecadores”. Assim, inclusive, ele se considerava mais pecador do que o Dr. Dráuzio e a criminosa Suzy. Pergunto, diante disso: você acha que o apóstolo Paulo foi um indigno, um nojento, um excremento, um desprezível, escória ou qualquer coisa parecida? Certamente, não! Mas ele, Paulo, com sua visão celestial em Jesus Cristo, tinha a clareza de sua condição humana diante de Deus e dos outros seres humanos.

Pense nisso! Difícil? Também acho. Mas é simples assim. Um forte e caloroso abraço da paz, em Cristo Jesus, nosso Senhor para você e sua família!


* Teólogo, filósofo e psicólogo e mestre em Ciências da Religião, Mariano é autor dos livros "Alcoolismo e Pastoral" (Editora Voz) e "Aconselhamento Cristão" (Editora Unicesumar). Atualmente, cursa doutorado em História pela Universidade Estadual de Maringá (UEM).



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