terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Artigo: Devaneios extraordinários, vidas ordinárias

24/02/2020

Por Léo Rosa de Andrade*


Alguém, de verdade, se assume como um tipo ordinário? Como adjetivo, o Houaiss elenca: “conforme ao costume, à ordem normal; comum; sem brilho, sem destaque; medíocre; de pouca ou má qualidade; inferior; de fraco valor moral ou intelectual; mesquinho, reles”. Nada elogioso.

Quando devaneamos, fazemo-nos o herói dos acontecimentos. Melhor ser extraordinário. Houaiss: “que foge do usual ou do previsto; que não é ordinário; fora do comum; que se caracteriza por ser raro, excepcional, notável; que é digno de grande admiração; fabuloso, inacreditável”.

O genial Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (1821-1881): no romance Crime e Castigo, o personagem principal é Rodion Românovitch Raskólnikov. Muito inteligente, mas desafortunado, sempre atormentado por dificuldades financeiras e por desconforto social, abandonou os estudos.

Raskólnikov criou sua própria teoria: sustentava que as pessoas estavam divididas entre ordinárias e extraordinárias: as ordinárias seriam as obedientes às leis e passíveis de punição se as descumprissem; as extraordinárias, não seria declarado, mas elas poderiam violar leis e cometer delitos, desde que necessários a uma intenção final útil à humanidade.

Assinalando-se extraordinário, persuade-se de poder cometer um crime; aliás, de que devia cometer um crime. A velha usurária acumulava dinheiro meramente por ser avara; não lhe dava destino benéfico. Com tal recurso ele poderia estudar, fazer bem ao mundo. Tomou de um machado e buscou os meios de cumprir suas boas causas. Mata Alíona Ivánovna.

Rodion relativiza o valor da vida particular, fazendo-o menor do que o bem geral que promoveria. Não se sustenta, contudo, como extraordinário; não dá conta do seu ato. Ordinariamente debate-se em falta comum. Atormentado, quer expiação. Imaginação persecutória: suspeita que suspeitam dele, como se buscasse quem pudesse imputar-lhe culpa e condenação.

Não sendo identificado como o assassino da velha argentária, vai-se expondo. Publica em jornal uma quase confissão. Um policial argucioso passa e tê-lo como suspeito. Premido pela própria consciência, revela-se, enfim, à prostituta Sófia Siemionovna Marmiéladova e segue aliviado seu conselho tão ordinário: entregar-se à autoridade policial e admitir o crime.

Dostoiévski dá a Raskólnikov um fim (moral) medíocre: a presunção que aceita uns poucos extraordinários vivendo sem ser percebidos entre a multidão ordinária é abandonada e resta ao principal personagem de Crime e Castigo, no exílio, refugiar-se numa vida religiosa típica, ao lado da mulher que o convenceu a submeter-se às leis que desprezara.

Há quem veja no romance grandeza existencialista: significação da vida, escolhas. Repudiar a própria teoria e eleger a via espiritual seria uma opção consciente. Tenho dúvidas. Vejo crime, culpa e busca de castigo.

Os valores circulantes introjetados enquadram Raskólnikov. Ele não escolheu, na medida em que, apenas, cumpriu o que lhe ditava a condenação advinda do seu próprio código moral, que, ademais, era o comum.

Dostoiévski extremou a humanidade: entre o ordinário e o extraordinário, um latrocínio. Matar uma senhora a machadadas para tomar-lhe o dinheiro é crime forte, ainda que se pretendam bons fins justificando maus meios.

Desejo medir-me comum ou incomum mais ao raso da coisa: sou um sujeito banal, cumprindo os vulgares costumes cotidianos, ou se me excepciono e vivo o tanto necessário à margem, para bem gozar meus prazeres?

Moral, adjetivo, Houaiss: “que denota bons costumes segundo os preceitos estabelecidos”. Lá do princípio, ordinário: “conforme ao costume, à ordem normal”; extraordinário: “que foge do usual ou do previsto”.

Obstupefato, dessumo: um sujeito preocupado com moral e costumes, referencial de gente comum, cumpre uma vida ordinária; já os desconformados ao padrão estabelecido paragonam o existir extraordinário. A pensar.

Anaïs Nin (1903-1977) instiga: “Nego-me a viver em um mundo ordinário como uma mulher ordinária. A estabelecer relações ordinárias. Necessito o êxtase. Não me adaptarei ao mundo. Adapto-me a mim mesma”.


* Psicanalista e jornalista, Léo Rosa de Andrade é doutor em Direito pela UFSC.


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